A televisão
até que não “me deixou burro muito burro demais”. Digo isso porque nos últimos
dias, ou meses nesta minha correria diária onde vejo as vinte e quatro horas do
dia desaparecerem de maneira volátil, ao sentar-me diante da caixa preta, tenho
como única distração, um seriado, exibido pela primeira vez no México na rede
Telivisa nos anos setenta chegando ao Brasil no inicio da década de oitenta.
O programa
Chaves, denominado em seu país como “Chavo Del oito”, protagonizado pelo
humorista chespirito encantou e ainda encanta pessoas de idades distintas. Com
um humor ingênuo, um cenário de baixo orçamento, o comediante Roberto Bolanos e
sua trupe de personagens repletos de chavões conquistaram boa parte do mundo
levando alegria aos nossos lares. Quem de nós nunca ficou completando as frases
do senhor madruga quando agride o Chaves? O choro da Chiquinha? O meloso
encontro do professor Girafales com dona Florinda? Ou até mesmo rindo do carteiro
Jaiminho que empurrava sua bicicleta por não saber andar dando preferência a
terceiros para que os mesmos procurassem suas cartas evitando assim a enorme
fadiga? Vai entender! Coisas de Tangamandápio.
Quando comecei
a ter contato com o programa televiso, muitas vezes achava hilário, outras
ficava torcendo para acabar e senti uma enorme saudade quando o mesmo saiu do
ar. Entretanto passados alguns anos, ao me deparar com ele novamente, e desta
vez com uma enorme freqüência, comecei vê-lo com outra perspectiva. Fico
espantado com o grande teor de cunho político social passado de maneira
implícita no seriado em meio a um coro de risadas. Confusos? Então vamos dar
inicio a começar pelo seu espaço físico. A historia se passa em uma pequena
vila, de origem humilde dividida por dois pátios, onde todos seus moradores são
desprovidos de residência fixa pagando ao proprietário destes imóveis
apelidado, devido seu excesso de peso, de senhor Barriga. Dando seguimento aos
outros moradores, entra em cena uma senhora de meia idade, viúva, mãe de um
garoto mimado que adquire praticamente toda espécie de brinquedo solicitado com
exceção da tão sonhada bola quadrada. Estou falando de Dona Florinda. Uma dona
de casa que, por receber uma pensão vitalícia do seu marido engolido por uma
baleia, julga-se financeiramente superior aos demais moradores insultando-os de
gentalha fazendo que seu filho tenha o mesmíssimo comportamento de desprezo com
a vizinhança. Dona Florinda tem um relacionamento meloso com um professor que
ministra aulas de conhecimentos gerais e exatos para alunos aparentemente de
ensino fundamental onde a sala da aula é típica das escolas públicas do Brasil
e talvez do México: espaço físico abarrotado de alunos, com pouca instrução e
escassez de outros elementos didáticos ficando apenas com a fala, o quadro
negro e o giz. Os alunos, maioria das aulas são dispersos, não compreendem o
processo histórico alem de se apavorarem quando são argüidos oralmente dando
respostas sem nexo afim de que as mesmas valham para algo.
O ator Ramon
Gonzalez interpreta o personagem seu madruga. Meu preferido por sinal. Com uma
calça jeans, desbotada, all star, camisa preta e um chapéu em frangalhos o ator
dá vida a um personagem que na maioria das vezes é visto por todos como um
vagabundo por não ter emprego fixo além de não estar com suas contas em dia. Ao
meu ver, o senhor madruga é mais um dos tantos Josés da vida que estão correndo
atrás de algo mas nunca alcançam. Observem que são poucas as vezes em que o
mesmo não está praticando algum oficio para ganhar uns míseros trocados: pintor
da vila, sapateiro, boxeador quando jovem, fotógrafo de lambe lambe,
carpinteiro, funcionário de parque, barbeiro e até mesmo pasmem... vendedor de
churros para Dona Florinda e conselheiro amoroso para o professor Girafales em
um momento de tensão com a amada. Ele sempre batalha, porém devido as mazelas
da sociedade em que está inserido nunca conseguiu um trabalho digno sustentando
sua filha como pode vivendo na escória da sociedade.
Finalizando temos
um contato com um garoto que deixa explicita a miséria. Com uma roupa toda
rasgada, Chaves é um garoto raquítico, com extrema fome, órfão, sem um teto
para se abrigar vivendo dentro de um barril. Em suma toda a trama está fazendo
uma denuncia da sociedade desigual em que vivemos, dos atos políticos mal
pensados onde inocentes acabam por pagar um alto preço por toda uma vida.