Eu poderia iniciar este “post” de uma maneira bem clichê dizendo que “mais um ano termina e nasce outra vez”, “estamos chegando ao final de mais uma batalha”, “que o coração do menino Jesus ilumine os demais”, “que o ano novo seja próspero com muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender”. Mas não venho aqui para desejar isto e algo mais a todos. Gostaria de explicar que não sou um cartão ambulante com frases prontas, muito menos tenho vocação ou pretensão para tal. E, se você espanta-se com minha ínfima declaração, perdoe-me: não causa efeito algum, pois sou blasé e meu hall de amizades (que são bons, poucos e super amigos) está cheio com a mesma característica.
O fato é que de boas intenções, não o inferno, pois assim como o Chuí ainda não o conheço e faço questão de cancelar minha ida cotidianamente, nosso ambiente está mais que abarrotado. Fico admirado como as pessoas conseguem ser amargas durante onze meses por ano e no último mês, excepcionalmente aos noventa minutos, são contaminadas por uma espécie de vírus da doçura e política da boa vizinhança onde surgem beijos, abraços, lembrancinhas surpresa com aquela excessiva frase seguida de mais um “caloroso” abraço: “espero que tenha acertado! Não conheço bem seu gosto, mas quando passei pela loja, parei e disse com meus botões: é a cara dele”! Ora, sendo assim, sem querer, a pessoa já contou o conteúdo da “surpresinha” ficando óbvio em decifrá-la. Na verdade, a “surpresinha” é nada mais do que um porta retratos com uma foto minha evidentemente. De preferência daquelas em que você recebe de brinde quando vai tirar fotos três por quatro em um cansativo ritual de ficar sério, paralisado como um Buda frente a assistente onde minha vontade sempre foi fazer caras e bocas para ela quando segura aquela grande máquina preta e se contorce mais que uma ginasta sugerindo que façamos aquela pose tão “criativa” meio de perfil com a perna semi cruzada esbanjando um semi sorriso forçado parecido com uma aplicação de botox.
Na verdade eu vejo que este “amor contagiante” poderia ser racionado durante os outros meses afim de que a sinceridade possa aflorar em nossos corações. Por que não abraçar quando se tem vontade e não por obrigação da festa natalina? Por que não começar a por em prática as palavrinhas mágicas, ensinadas pelos mais velhos e doces como as tortas de maçã de nossas avós dizendo boa noite! Como vai? Boa tarde! Bom dia! Obrigado! Ou então, “lembrei de você quando vi a cena daquele filme”. E outra, por que não dizer que ama fulano de tal fora do mês de natal?
Devemos lembrar que muitos não nasceram no mês de Dezembro e existem outros onze meses esperando por um depósito, mesmo que mínimo, de sua real felicidade. Não seja imbecil ao ponto de achar que um único mês mudará toda sua vida. As dificuldades e os obstáculos deste espetáculo que se chama vida estão presentes de modo constante e ao depararmo-nos com elas significa que devemos agir como Muhammad Ali frente ao seu oponente: “voe como uma borboleta e ferroe como uma vespa.”
As cortinas vermelhas foram abertas e um público enorme e diversificado espera ver sua atuação durante trezentos e sessenta e cinco dias do ano. E o que posso desejar a você? “Merde”.