sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Sem meias verdades


Vivemos em um bombardeio constante de tantas informações que, infelizmente, com o acesso instantâneo das mesmas, ficamos sem saber como filtrá-las. Isso mesmo! Sem saber classificá-las como úteis e ou inúteis para nosso merecido conhecimento.
É de causar espanto como uma notícia, por mais banal que seja, sobrepõe as outras que deveriam ser de extrema importância, fazendo com que as últimas ganhem status de “desinteressantes” para a grande massa. Estamos priorizando cada vez mais uma pessoa que perdeu seus merecidos quilos em troca de maior publicidade pessoal do que importantes decisões políticas dos que governam nosso país. Somos cada vez mais atraídos pela grande caixa preta com seus programas de baixo nível do que abrir um livro e se deliciar com cada virada de página. Choramos a morte de grandes ícones televisos e tratamos com indiferença àqueles que cotidianamente têm sua trajetória de vida interrompida por uma bala perdida nas guerras das favelas brasileiras. Ficamos felizes ao ver nossa educação apresentar números e mais números de “avanços” e nem sequer nos preocupamos com o desempenho dos nossos alunos. Números não representam nada para nossa educação uma vez que nossas crianças estão cada vez mais indo para o Ensino Fundamental sem saber ler corretamente e quiçá escrever. Quem será este profissional? É merecido que o mesmo tenha um ingresso em um curso superior? Como nos alegrarmos com a vitória do nosso país para sediar grandes eventos esportivos se nossa infraestrutura é falha correndo o sério risco de não suportarmos devido nossas vias esburacadas e nossos transportes públicos em boa parte sucateados? Nossos hospitais públicos, ao invés de cuidarem de nossas vidas, fazem o contrário por falta de equipamentos, de atendimentos prioritários e tudo passa em branco pois o último capítulo de mais uma novela das nove soa como algo que chame mais nossa atenção, que nos relaxe diante de tanta barbárie.
Testando nossa grande atração pelo império do grotesco resolvi fazer um teste. Observei que mais uma vez será realizada a décima terceira edição do famoso reality show Big Brother Brasil transmitido pela Rede Globo onde pessoas saem do anonimato sendo transformadas em celebridades instantâneas, desmistificando a verdadeira origem do nome proposto pelo escritor George Orwell em seu livro denominado 1984. Ao observar a chamada do programa  elaborei um agradecimento onde estaria simulando uma possivel entrada no famoso BBB divulgando em minha página no Facebook  tendo em poucas horas a resposta: nossos valores intrínsecos, nossos problemas sociais que enfrentamos a cada dia em nossa cidade foram mais uma vez desconsiderados em nome da curiosidade, da vontade de sabermos mais e mais sobre a futilidade alheia. Por horas boa parte dos usuários desta rede social deixaram de fazer suas atividades cotidianas para saberem se o comunicado era verdade ou mito. Nos esquecemos durante horas da poeira que bate a cada dia mais pesada na ponta do nosso nariz, nos esquecemos por horas da extração mineral que explora de maneira ilegal o meio ambiente de Congonhas, nos esquecemos por horas da  falta de oportunidade de empregos em outras áreas, nos esquecemos de quem são e o que pretendem os vereadores eleitos e reeleitos na câmara que definirá o futuro de nossa tão amada cidade dando mais uma vez a prioridade ao que não nos acrescenta em nada.  
Agradeço a todos que acreditaram nesta notícia originada por uma imprensa marrom e peço do fundo do meu coração que todos busquem cada vez mais a fundo o que é verdade e o que é mito dando mais valor ao que realmente engrandeça nosso infindável conhecimento. Obrigado!

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Se o errado pra mim for certo, eu não me importo. Eu me entrego


            Foi como se tudo estivesse ao nosso favor. Primeiro fomos conhecendo aos poucos, sem qualquer contato físico ou algo que nos valha. De forma simples e tímida, nos encontramos em uma calorosa noite de sábado e fiquei espantado com o tanto que você falava e eu escutava. Confesso que algumas vezes ficava tão confuso por estar em meio a tantas pessoas desconhecidas que não entendia bem o que você, as vezes, falava ao pé do meu ouvido. Conversamos tanto, ou melhor, lhe escutei tanto, que quando dei por mim a festa já estava pela metade e eu, como num jogo de WAR não havia sequer chegado perto do meu longínquo e ao mesmo tempo próspero objetivo. Afinal de contas, eu não esperava tamanha surpresa em encontrar você ali, em uma mesa de bar (parafraseando Frejat), destacando-se entre os demais, com um sorriso peculiar estampado no rosto acompanhado por bochechas que facilmente ficam rubras ao receber um elogio.

            O tempo daquela noite, juntamente com as pessoas daquela festa logo começou a esvair-se e quando menos se esperava meus braços já envolviam seu corpo como se eu quisesse te defender de algo sendo que na verdade eu só queria sentir pela primeira, ainda que meio sem jeito, seus lábios de encontro aos meus gerando uma perfeita conexão diante de sinceros e curtos diálogos seguidos dos mais puros afetos.  Realmente foi um momento quase inenarrável. Parecia que eu havia voltado no tempo. Sentia-me um verdadeiro cavalheiro que conduz a dama por onde quer que vá. A partir daquele momento começava os primeiros capítulos da nossa historia: sentamo-nos em um banco de praça onde conversamos por horas sobres os mais variados assuntos, várias foram nossas saídas a dois onde diante de sua enorme ternura e delicadeza me na obrigação de abrir portas para que você passasse à frente e puxar cadeiras para que você se sentasse. Foi tão espontâneo que isso passou de obrigação a rotina, algo normal. E essa mesma rotina que passou a fazer parte dos meus dias enchia meu peito de felicidade quando chegava mais um final de semana e você estava mais uma vez em meus braços abrindo esse sorriso desalinhado e sincero contando-me sobre seus dias de conquistas, de seus aprendizados e suas gafes que sempre me fizeram rir quando depois de algum tempo você ficava rubra de vergonha pedindo-me que as mesmas fossem esquecidas ou permanecessem em sigilo absoluto. Tenho certeza que aprendi mais sobre essa nossa vida do que pude ensinar a você e escrever sobre essa “rotina” que passei ao seu lado seria uma tarefa árdua, sem um ponto final. Penso que o que ficou não são simples lembranças mas sim uma vontade de pegar meu velho par de tênis de couro marrom que eu gostava tanto de lhe mostrar, engraxá-lo com toda minha força e subir o morro da minha rua para mais um encontro com você ou esperar ansiosamente na janela da minha casa sua chegada a minha rua em uma tarde de domingo. E, apesar de você não concordar, houve tanta afinidade que eu penso que só pode ser bom. Mas se é contrário, é ruim, é pesado e eu não acho bom. E eu fico esperando o dia em que você me aceite novamente, pois eu ainda vou te convencer. “E peço me perdoa me desculpa se eu não fui seu namorado, pois fiquei atordoado de amor faltou ar, faltou ar (...) me despeço dessa historia e concluo: a gente segue a direção que o nosso próprio coração mandar.”  Te amo Galega!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Mais por Congonhas


Ao partirmos de um pressuposto de turismo sustentável na cidade de Congonhas devemos primeiramente refletir, ou pelo menos, pincelar algo de como foi dado seu início.
            Ao visitarmos os museus da cidade ou até mesmo prosear com antigos moradores exercendo, indiretamente, um trabalho de historia oral, podemos constatar que o Turismo da cidade tem seu início por volta dos anos trinta quando a fé de pessoas vindas de todo canto do Brasil, adentravam noites e dias de viagem em busca de uma graça alcançada pagando sua “dívida” na igreja do Senhor Bom Jesus de Congonhas, situada na Basílica.
Todos os anos milhares de romeiros vinham agradecer a graça concedida e nos meses de setembro a cidade era pouca para tantas pessoas que por ali mesmo se alojavam por uma semana em um culto religioso de extrema fé. Com o tempo, a cidade foi sendo visitada de forma mais contínua, além de oferecer outra “salvação” para aqueles que acreditavam na cura de problemas de saúde pelas mãos do Senhor José Arigó de Freitas supostamente encarnando o espírito do médico alemão Doutor Fritz. Pessoas não só do Brasil como do mundo inteiro vinham à cidade para uma cirurgia com o médico que utilizava instrumentos arcaicos sem qualquer assepsia. Filas enormes compunham a fachada de sua casa localizada na época próxima a estação ferroviária de Congonhas durante horas e como uma espécie de passatempo, segundo alguns moradores, a cidade foi utilizando-se daquilo e mostrando aos visitantes suas belezas arquitetônicas barrocas esculpidas ao ar livre pelo mestre aleijadinho na Igreja do Nosso Senhor Bom Jesus localizada no bairro da Basílica.
Além da questão religiosa, as pessoas agora vinham em busca de lazer, queriam apreciar as obras do Mestre Aleijadinho e a paisagem natural que as cercava. Afinal as obras até o presente momento transbordam uma genialidade e beleza agradando a maior parte de todos que as visitam. É como se as imagens localizadas dentro das capelas nos sete passos pudessem olhar e falar, expressando todo sofrimento retratado da época.
Com o andar da carruagem a cidade de Congonhas ficou cada vez mais conhecida por seu grandioso conjunto arquitetônico barroco ao ar livre trazendo milhares de pessoas a fim de se informarem sobre tão grandioso feito sendo reconhecida como patrimônio cultural da UNESCO. O turismo, assim como em Ouro Preto e Mariana, foi cada vez mais se intensificando e a cidade, infelizmente, não acompanhou tamanho avanço. Na verdade as obras, como já dito passaram ser atração principal da cidade e nada mais, ou seja, não foi dada importância de outros pontos da cidade. Não foi salientada para os visitantes a importância dos seus distritos no processo de construção e identificação do município.
O distrito do Maranhão que abriga até hoje cadeias da época colonial, fabricadas em blocos desiguais de pedras com portas e grades de aço, foram jogadas as traças, estão no esquecimento da população, deixando a vegetação tomar conta das mesmas onde nota-se a ausência de visitações ao local.
Trilhas datadas da época do império, localizadas nos fundos da Escola Municipal Fortunata Junqueira de Freitas com construções de tubos para condução de água passando pelas matas daquele local foram também negligenciadas dando espaço a construções particulares. E o que dizer da riqueza do distrito de Soledade? Atualmente denominado de Lobo Leite em homenagem ao engenheiro Francisco Lobo Leite Pereira, responsável pela construção de uma linha férrea na época de Dom Pedro II, fazendo com que o então distrito ainda denominado de Soledade servisse para abastecer as cidades de Ouro Preto e Mariana com seus produtos agrícolas encontra-se totalmente no esquecimento da população.
Toda a riqueza turística da cidade de Congonhas ficou simplesmente concentrada nas obras do mestre Aleijadinho, não fazendo uma conexão abrangente para que os fatos sejam repassados aos que visitam a cidade e pesquisados para os que trabalham com sua identidade histórico cultural gerando o infeliz resultado de uma cidade de passeio, descaracterizada em seus imóveis cada vez mais modernos, não dando valor algum ao ambiente histórico preservando assim uma pequena parte de seu patrimônio.
Pela falta de políticas públicas contundentes para com o turismo local, chega-se até a cidade, aprecia-se rapidamente o entorno localizado na Basílica, seguindo viagem para outras cidades históricas com algo mais atrativo sobre seu surgimento, sua identidade, sua historia.
 Pouquíssima atitude vem sendo tomada ao longo dos anos ao que tange sobre algo como educação patrimonial em nosso município. É raro ver um professor da cidade saindo com seus alunos para lugares como do distrito de Lobo Leite, Maranhão ou até mesmo no próprio entorno da Basílica. A cidade vem a cada dia dando maior importância para o ato de exploração mineral esquecendo-se da importância de seu passado.
Chega ser explicito o tamanho da expropriação de nossas riquezas minerais pelas mãos de grandes empresas privatizadas, onde farelos de uma mísera fatia deste bolo ficam para os cidadãos congonhenses. Farelos estes que chegam a quebrar nas pontas dos nossos narizes em forma de pó de minério de ferro sujando nossas vias públicas, nossas residências, dando a impressão de estarmos inseridos na época colonial onde as casas eram da cor de barro devido à exploração aurífera.
 Além de agravar nossa saúde a cada dia, é de causar espanto o fato de nenhuma destas grandes empresas criarem algumas medidas mitigatórias  ao  seu impacto estabelecendo uma união junto aos órgãos públicos, uma política de turismo sustentável, de preservação patrimonial para a cidade de Congonhas para fomentar não somente a vinda de mais pessoas a cidade com o intuito de conhecer seu passado por inteiro como também aguçar o lazer do cidadão comum, ou seja, sair dessa esfera onde a importância patrimonial da cidade encontra-se somente em um único lugar.
 Chega a causar espanto a discrepância de órgãos públicos do poder Executivo de Secretarias de Cultura e Educação andando em sentidos contrários e pasmem, em calçadas distintas, ao promover anualmente uma Semana de Museus com uma pequena visita de estudantes da rede municipal de ensino a um determinado ponto da cidade (na maioria das vezes o entorno da Basílica) não dando continuidade ao processo histórico gerando a infausta inexistência de um projeto mais abrangente despertando a curiosidade, do por que estar inserido naquele lugar.
Em suma podemos assim observar que a prática de um turismo sustentável na cidade é de extrema importância e urgência e aliando este fato com uma educação patrimonial nas escolas teríamos em poucos anos um impacto mais produtivo neste setor que vem a cada dia agonizando, sendo deixado para trás.    

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Memorial Reflexivo: repaginando-me (reeditado)


Logo após ingressar na faculdade de Historia, na cidade de Barbacena, adentrei  para o universo da educação de modo bastante rápido e, com toda razão, inexperiente. Sem ainda estar formado, já comecei a ministrar aulas de Geografia, Sociologia e História voltadas para o ensino médio. Uma experiência ótima a principio.
 A receptividade naquele ambiente jovem foi totalmente agradável. Lembro-me que na época, frequentava os mesmos lugares, as mesmas festas que muitos alunos, além de conhecer parentes de alguns ou até mesmo ter amizades com irmãos de outros. Praticamente todos gostavam de  mim e, consequentemente, das minhas aulas, era o que eu pensava.
O tempo foi passando e em uma manhã, ao aplicar um exercício de outro professor em uma de minhas turmas, fui comunicado por uma funcionária da escola que estava sendo chamado à sala de direção. Todos me olharam assustados como se eu fosse um aluno que cometera algo ilícito no horário do recreio. Sem saber o porquê do chamado, caminhei até a sala de direção sentindo-me acusado de algo, me transformado então, naquele mesmo aluno de cabeça raspada, jogador da seleção de vôlei da escola e titular da seleção de Congonhas, pertencente ao terceiro ano “C” de mil novecentos e noventa e nove da mesma escola em que agora lecionava. Descendo aquelas mesmas escadas, sendo chamado à direção e pasmem, pela mesma diretora, por ser denunciado de cortar a fiação além de poluir a caixa d água com cinco quilos de pó de suco artificial resultando no fechamento da escola por três dias.  
Ao chegar naquela sala, onde não só a disposição do ambiente como também a diretora permaneciam idênticos como naquele tempo, fui convidado a sentar-me e somente sua voz não foi idêntica a daquele ano: esbravejante e rouca. Pelo contrário, ao conversar comigo, foi logo me parabenizando por ser um ex-aluno daquela instituição e poder voltar à mesma como professor. Até o presente momento tudo bem. O pior ainda estaria por vir.
Delicadamente, aquela mulher alta de medidas extravagantes, logo foi ponderando alguns “erros” em minhas aulas. Segundo ela, suas argumentações estavam sendo baseadas em alguns questionamentos de outros professores que não conseguiam trabalhar pelo fato de que as turmas em que eu ministrava minhas aulas eram dotadas de um comportamento um tanto quanto exaltado, ou seja, falavam demais e que a partir daquele dia, ao voltar para minha sala, deveria repensar meus métodos. Na verdade, o “repensar meus métodos” que ela se referia era nada mais do que engessar uma possível, mesmo que ínfima mudança.
A diretora também era formada em Historia e gostaria ou impunha de maneira cordial, que eu fizesse a continuidade do tradicionalismo que fora instituído ali por anos e que a mesma orgulhava-se tanto ao dizer: “Esta é uma escola referência e não podemos perder este título”. Como se seguisse uma receita de bolo, eu deveria limitar minhas aulas a algo mais factual que foi amplamente difundido por uma vertente onde o ensino pautava-se apenas na transmissão de conhecimentos do professor para o aluno, ou seja, não deveria haver existência de críticas sobre determinado fato e assimilação factual deveria sobrepor-se gerando assim uma avaliação mecanizada de todo conhecimento.
Após aquela conversa, fui recuando. Com medo de perder um dos meus primeiros empregos formais, acabei com o que aos poucos, sem perceber, vinha sendo construindo entre eu e aqueles alunos. Uma aula mais prática, que de certa forma era sim barulhenta, mas que prendia a atenção dos alunos, pois os mesmos opinavam em qualquer fato. Assim tomava contato com a força da tradição da escola que influenciava profundamente o ensino da não só da Historia escolar.
Os dias passaram-se e em meus horários vagos decidi observar o “método correto” de dar aula de alguns profissionais que estariam agradando a direção. Afinal de contas não era mais um adolescentizinho e precisava agir como um “verdadeiro professor”.
Foi assim que com o passar dos dias, minhas aulas tiveram a mesma característica das frias noites da cidade de Barbacena onde viajava diariamente com o intuito de concluir minha tão sonhada graduação. O convite da diretora significava um verdadeiro retraimento de um entusiasmo juvenil.
As aulas em círculos, onde eu explicava o conteúdo no meio da turma, com inspirações no programa sem censura com Leda Nagle foram rapidamente sendo substituídas pelas velhas cinco fileiras, todas muito bem organizadas onde meu lugar era a frente de todos sujando-me com o pó de giz passando textos de outros livros e logo em seguida exercícios referentes aos mesmos. O forte envolvimento com os alunos foi sendo cerceado mantendo um em favor de um único foco: todos estavam ali para atuarem posteriormente em um curso de graduação e minha única obrigação, apesar de pensar que não fazia o ridículo papel de mero transmissor de conhecimentos, era fazer com que boa parte se saísse bem em seus exames buscando assim maior “conhecimento”. Nossos momentos de reflexão como, por exemplo, de nos colocarmos dentro da Ditadura Militar, da Segunda Guerra, do Nazi-Facismo, da Guerra Fria, foram também substituídos por questões e mais questões de vestibulares. Era tudo muito técnico. Lembro-me das noites em que preparava minhas aulas todas pautadas em exercícios como estes para resolvê-los com meus alunos. Uma grande ilusão! E assim seguia a minha carreira. Só enxergando para frente, sem sequer piscar ou olhar para os lados. Mantendo o foco e pensando no meu emprego. Era a realidade dos fatos: eu era um professor substituto que estava de passagem e em um curto período de seis meses. Já não configuraria no hall dos efetivos, sendo assim, de nada adiantaria sair dos padrões estabelecidos naquele recinto escolar. Deveria então me adaptar para, quem sabe em uma próxima designação, ser cada vez mais aceito pelos meus colegas de trabalho e pela diretora por não fugir daquele caminho  traçado
Como era de se esperar, as aulas foram ficando engessadas, sem participação dos alunos. Comecei a observar que estava ficando inseguro ao explicar determinado fato histórico. Em frente a mais de trinta adolescentes ficava com a saliva seca e grudenta, as mãos e roupa todas sujas de giz e, como resposta de todo este esforço que institucionalizei, sempre escutava um bocejo do fundo da sala ou então, no final daquela exaustiva explicação, ao olhar para seus rostos e fazer a derradeira pergunta: “entenderam?” todos, mecanicamente feito uma ola nos estádios de futebol, faziam um movimento com a cabeça correspondendo a um sim, entretanto, este mesmo “sim” era expresso em suas faces por um vazio, algo como se nada das explicações tivesse sido filtradas e a frustração sempre vinha semanas depois quando eram testados para obterem nota.
A inquietude começou profundamente a incomodar-me e nas minhas noites de descanso, fazia sempre a mesma pergunta: “como processar uma explicação mais abrangente sobre determinado fato histórico visando uma maior atenção e entendimento dos alunos no seu processo de ensino aprendizagem?”
Meu contrato naquela escola de Ensino Médio expirou-se e eu não havia encontrado respostas para aquela angústia. Fiquei um bom tempo sem ministrar aulas e neste período transitei entre dois empregos distintos: funcionário de uma biblioteca pública e posteriormente de um departamento de fiscalização fazendária.
Chegando ao ano de dois mil e oito, fui aprovado em um processo seletivo da cidade de Congonhas para ministrar aulas para o Ensino Fundamental do sexto ao nono ano. Não queria de forma alguma em minha vida trabalhar com Ensino Fundamental. Acreditava que era desprezível ter que ensinar crianças de sexto ano por exemplo. Achava-os muito infantis e coloquei em meus pensamentos que tal fato nunca ocorreria. Foi então que no primeiro dia letivo de aula, no momento de saber quais seriam minhas turmas, fiquei menos insatisfeito quando descobri que ficaria com as séries finais, ou seja, oitavos e nonos anos. O estágio de felicidade foi passageiro e, ao perceber que meu cargo estava incompleto, mais uma vez foi solicitada minha presença na sala de Direção para ser informado que também trabalharia com algumas turmas de sexto e sétimos anos. Minha frustração aumentou naquele mesmo instante deixando-me inseguro, despreparado para trabalhar com crianças daquela idade.
Ao aceitar aquelas turmas mais jovens não fiz o mínimo esforço para mudar. Com medo de novamente ser chamado atenção pelo mesmo motivo de alguns anos atrás, ministrei minhas aulas como se estivesse em uma sala de Ensino Médio com exceção das questões de vestibular. E o efeito fora o mesmo. Porém desta vez sendo convidado a participar de reuniões com pais que contestavam aquele método para aquelas crianças. Agora eram os pais que pressionavam outra postura como professor.
Definitivamente o problema era meu e eu deveria buscar algo mais prático, que ensinasse sem tantos padrões formais, ou que pelo menos fizesse uma amálgama dos dois. Eu deveria agora, mesmo que correndo risco do fracasso ou das críticas, seguir uma  outra trilha. Sabia que meu aluno ser desafiado a pensar sobre as informações apresentadas em sala de aula criando assim um elo de compreensão de relações em determinados fatos históricos. Sabia também que deveria levar em consideração o conhecimento prévio a fim de exercer uma troca de conhecimentos entra ambas as partes gerando na sala de aula um ambiente de produção do conhecimento histórico. Com colocar isso em prática sem causar constrangimento aos meus superiores? 
Em uma de minhas aulas para um sétimo ano sobre o período da Idade Média percebi que minha linguagem era bastante complexa para aquelas crianças e acabei tendo uma imagem de um professor de cursinho, expelindo conteúdos e mais conteúdos, acelerando sem que estas crianças pudessem me acompanhar. Era exigido terminar o livro didático em tempo hábil fechando meus trabalhos. Quanta ambição!
Mais uma vez refleti muito sobre como poderia fazer algo satisfatório para aqueles garotos. Pensei nas conversas com alguns pais e foi quando em um desses finais de semana estendidos com feriado de dois a três dias, em um dos meus vários momentos de nostalgia, aluguei uma serie de DVDs do desenho animado He-mam.
 Vendo aqueles episódios relembrei da minha infância sentando ao sofá, vidrado naquelas batalhas entre o “bem” e o “mau”, os frequentes ataques do esqueleto a fim de invadir de vez o castelo de Grayskull. Foi assim que vendo o castelo, os rei e rainhas e as vestimentas dos heróis e vilões que pude perceber certas características da Idade Média e, passando alguns episódios poderia criar algumas atividades para que os alunos pudessem identificar as semelhanças no desenho com o conteúdo em questão. Realmente foi algo que deu certo e que prendeu atenção de todos.
Logo depois, dada a atividade, em uma conversa informal, com as carteiras novamente em círculos, os alunos, por conta própria, começaram a identificar os personagens do desenho separando os “bons” e os “maus” e com uma visão verticalizada, assim como na minha infância, entenderam que o bem era representado por He-man e seus amigos e o “mau” era consequentemente o bruxo esqueleto.
Todos concordaram exceto uma garota que ao comparar o desenho com a Idade Média via He-man como um cavaleiro que fazia parte da ordem nobre da escala feudal prestando serviços aos reis de Etérnia. Achei brilhante sua percepção e vi que ela não iria parar por ali ao me dizer também que o esqueleto não era tão “mau” assim. Para ela, o bruxo azul com capuz era representado por uma caveira que significava a morte, a fome de muitos da idade media devido às pestes e falta de higiene daquela época. Morava em um lugar escuro (montanha da serpente), representando o local das trevas imposto pela igreja e foi assim que pude perceber que por meio do lúdico poderia abrir caminho para o conhecimento dos alunos de forma menos entediante do que simplesmente falar e escrever. Observei também que o uso repetido desse tipo de intervenção tornaria as aulas sem sentido ou repetitivas. Estava pronto o desafio de trabalhar de modo diversificado o conteúdo de Historia e tentar apresentá-lo de modo dialogado com as questões do presente daqueles alunos seja por meio de mídias ou até mesmo na busca da interdisciplinaridade.
Graças a esta aula, com alunos de Ensino Fundamental, venho desenvolvendo jogos que servem de apoio para disciplina de Historia, tentando atualmente, também por meio de jogos lúdicos, apresentar aos mesmos uma maior valorização do patrimônio cultural da cidade de Congonhas.
Sendo assim, pretendo desenvolver um jogo sobre o patrimônio artístico cultural da cidade de Congonhas que sirva para alunos do 6º ao 9º ano refletirem sobre a importância patrimonial da cidade de Congonhas, muitas vezes pouco discutida em livros didáticos que simplesmente fazem um breve comentário sobre o entorno das obras do mestre Aleijadinho.
Este jogo terá como temática uma busca na ludicidade como forma de aprendizagem  da disciplina de Historia e será baseado no jogo criado pela Grow denominado Perfil, onde são dadas dicas em várias cartas sobre uma pessoa, uma coisa, um ano e um lugar.
Na elaboração deste jogo voltado para alunos do ensino fundamental será trabalhado todo o entorno da Basílica do Senhor Bom Jesus juntamente com os museus da Imagem e Memória e Mineralogia.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sagacidade balzaquiana


                Hoje estava fazendo uma análise sobre meus aniversários. Entrava o ano já pensando na data e, no decorrer dos meses, nunca via tanta demora em que o mês de abril passasse logo. Maio entrava tímido como as manhãs do outono e logo, findada sua primeira semana, chegava o meu grande dia. Abraços, telefonemas e presentes. Quem não gosta disso no dia de aniversário com exceção dos parabéns a você e o famoso com quem será?
                Parece que me lembro de todos aniversários. Festas improvisadas na garagem, meus primos correndo pelos cantos da casa com meus brinquedos, o bolo dos oito anos enfeitado com minha coleção de bonecos do He-man. Enfim, uma nostalgia que só de fechar os olhos consigo escutar vozes de pessoas que não fazem parte deste mundo (meus queridos avós maternos) e pessoas que, assim como eu, concluíram sua infância e juventude e hoje detêm o título de adultos. Se bem que existem alguns adultos com certas atitudes... Bom, mas o fato é outro. Em nossa fase adulta, vivemos tão as pressas que o aniversário passa a ser do mesmo modo. Os primos já não podem vir, alguns amigos têm vários compromissos e outras pessoas simplesmente esquecem o seu dia e só ligam uma semana depois como se tivessem faltado ao serviço sem dar uma explicação plausível para o chefe temendo o corte do ponto.
                Diferentemente das outras datas, vejo esta de forma especial. Não creio que especial seja a palavra correta, mas ela chega a ser... Estranha! Afinal entrarei para o clube dos balzaquianos. Pensava que o termo servia exclusivamente para mulheres inspirado na obra mulher de trinta anos de Balzac. O termo foi crescendo tanto que agora pode servir também para nós homens.
                Minha estranheza não é pela vaidade, mas sim por nunca imaginar este dia chegando juntamente com uma carga de compromissos propícios desta fase como emprego, planejamento financeiro, restrições de antigos hábitos, relacionamento durável, enfim um amadurecimento que sinto ter chegado anos atrás com o surgimento de fios brancos na vasta cabeleira negra.
                Já não consigo me apegar a qualquer coisa pela mais banal que seja. Os olhos já são projetados com lentes de aumento, as roupas vão ficando cada vez mais sérias sem precisar, creio eu, de usar ternos e só o que ainda não mudou, aliás, não passou por um período de maturidade, é a incessante busca em sempre tentar alcançar os céus, errar as estrelas e chegar à lua. Torço para que tal busca seja impossível, pois só assim continuarei com mais sagacidade acreditando que o fim de tudo, ou melhor, a fase das conquistas não pertence somente ao período balzaquiano. Do contrário, adoeceria propositalmente contraindo a síndrome de Peter Pan buscando a realização dos meus sonhos.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Com ou sem ar condicionado?


Viagem. É nunca escrevi sobre isto aqui! Certa vez determinei algo em minha vida que juntaria dinheiro e iria realizar uma. Praias do Brasil? Não. Definitivamente não. Europa? Quanta pretensão para um funcionário público contratado. Se bem que o salário não é ruim, mas saber que a estabilidade é ínfima aí sim é um caso a se pensar e com muito cuidado. Ainda não realizei minha sonhada viagem, mas ontem, sem querer, meio que por acaso, viajei para vários cantos do planeta. Aí vocês devem estar se perguntando: mais um fazendo uso de lisérgicos e contando seus devaneios.
Na verdade, tudo começou da seguinte maneira: no inicio de uma linda noite de terça-feira  sentei em uma cadeira vermelha apertada para minha estatura, que me fez lembrar uma infausta viagem para Vitória ES, acho que vem daí minha náusea por praias, deixando realmente mal humorado com tudo. Pois bem, ao sentar naquela cadeira vermelha meus joelhos já começaram a sentir a pressão de quem se debruçava no encosto da cadeira posterior. Uma hora e alguns minutos depois teve início a viagem.
As luzes do ambiente apagaram-se, todos os passageiros foram tomados por um silêncio absoluto e de repente decolei para onde nunca pensava em ir: Europa. Passei pela Suíça onde conheci um civil fanático pelo meu país. Sua casa era coberta por uma enorme bandeira brasileira, suas roupas eram sempre representadas pelo marcante verde e amarelo. Nunca vi tanta hospitalidade em um europeu que mais parecia brasileiro. Depois de um certo tempo de conversa a fim de fazer minhas necessidades fisiológicas fui visitar seu banheiro. Tudo normal a não ser a dita privada. A mesma continha um adesivo com um boneco palito ilustrado representando um homem segurando sua parte íntima e logo acima um sinal de proibido. Não entendi nada e antes mesmo de fazer algo errado, mesmo apertado, sai do banheiro e fui logo perguntar ao dono da casa onde eu deveria urinar certo de que na privada era proibido. Vendo minha indagação o homem, que vestia saias, tranquilamente veio me explicar: “o lugar é este, porém, não só em minha residência, mas como em toda suíça, urinamos sentados na privada. É bem mais higiênico e não deixa mau cheiro no ambiente”. Fique pasmo! Esse sem dúvida é o melhor método para não errar a pontaria.
 Saí dali e fui direto para Índia. Lá todo  mau cheiro da privada era encontrado por toda parte. Quanta gente e quanta ausência de higiene! De um lado do rio Gangis vi pessoas lavando suas roupas, convivendo com outras que defecavam por ali mesmo e outras que lavavam suas roupas tudo isso no mesmo ambiente, na mesma água. O sagrado realmente falava mais alto. Até dentista de rua foi possível ver. Aperta dali, molda daqui e com ferramentas sem esterilização alguma  estava lá mais uma dentadura feita na rua.
Partindo para Portugal, presenciei algo mais exótico ou vergonhoso. Em Portugal quando você deve alguma conta, seu nome não é levado ao SPC ou algo do tipo. Um homem vestido de preto o acompanha feito uma sombra por quase todos os cantos e assim os outros civis ficam sabendo do seu mais novo calote na praça. Quanta criatividade não?
Em Dubai não poderia ser diferente. Mais um choque cultural! Em meio a um calor parecido com o carioca vi mulheres vestidas de preto como os homens de Portugal. Era uma espécie de burca, entretanto, seus lindos rostos ficavam completamente a mostra. Esta vestimenta é algo obrigatório por cima de qualquer roupa e até em um momento de prazer como ir a praia, por exemplo, deve ser usada. Um uniforme. E  somente seu marido pode ver seu corpo. Um marido que pode ter até três mulheres desde que saiba ministrar seu dinheiro de forma igualitária entre ambas.
Na Alemanha mesmo após tantos anos do terrível período Nazi-fascista, longe das cidades mais agitadas como Berlin ou Boom, pude observar o horror dos nativos aos estrangeiros. Quase todo cidadão alemão fala um inglês compreensível, mas não são muito favoráveis a dar informações em outro idioma para quem visita seu país. Era como se você está na Alemanha pronuncie meu idioma. Bem perto dali, quase vizinhos, dei uma volta na terra dos perfumes, capital da moda, das ideias iluministas. A França continua linda, diga-se de passagem. O único problema foi ter escolhido o inverno como estação de visita. Frio? Muito como sempre. Mas desta vez estava bem protegido. O problema maior é que nesta estação os românticos franceses fazem uso de um banho parecido com banho de leito, ou seja, lavam algumas partes de corpo e se entopem dos mais distintos perfumes. Resultado: adentrar em um metrô é tarefa árdua. Vários cheiros que chegam a dar náuseas lembrando totalmente o inverso das ótimas fragrâncias.
Finalmente,  depois de mais ou menos duas horas de viagem, retornei para minha tão querida, suja e triste cidade natal que respira poeira misturada  ao minério de ferro e que pode ofertar-nos  uma linda noite voltada para cultura engrandecendo nossos conhecimentos sem precisar ir tão longe. Obrigado senhor jornalista Mauricio Kubrusly por esta aula de cidadania, cultura e acima de tudo respeito as diferenças. 

domingo, 18 de março de 2012

Quem não comunica não se trumbica. Se estrepa!


                O ano não poderia ser outro senão o de mil novecentos de dois onde em uma negra noite chuvosa de sábado, seis indivíduos de personalidades distintas encontraram-se, meio que por acaso, ironia do destino,  naquela espaçosa taberna  na companhia de vinhos, sucos, batatas, cervejas e vários cigarros começando, de improviso, a dar início ao que poderíamos chamar de confraria.
                Os festejos que ocorriam na mesma noite daquele ainda pacato vilarejo não eram vistos com bons olhos por nenhum dos integrantes da mesa. Afinal, ambos se queixavam da invasão de pessoas com idade precoce em espaços noturnos tirando assim o que ainda poderíamos chamar de privacidade. Em suma seria nada mais do que “uma festa estranha com gente esquisita e eu não estou legal”.
Conversa vai conversa vem e os temas foram dos mais esdrúxulos possíveis. Imaginem só a diversidade. Foram abordados temas de extrema responsabilidade sobre o meio ambiente, diferenças culturais entre o ocidente e oriente, tradições familiares no período da quaresma como abstinência de álcool, relação dos mais antigos com a morte, a viuvez, fato que não é muito visto em 1902,  espécies distintas de camarões onde o nome de uma espécie deixou alguém com água na boca, banheiros de boates GLS personalizados de acordo com sua preferência sexual, dizeres sobre a criação do código Morse, chegando a passar por dicas de como fazer seu namorado broxar. Aliás, desde que me entendo por gente, desde que mundo é mundo, não conheço ninguém que se dirige à casa de Deus e deseja algo totalmente inverso a santa benevolência. Se bem que temos o livre arbítrio e sendo assim seremos responsáveis por nossos próprios “pecados”.
                A tecnologia também foi abordada e já em mil novecentos e dois, época jovem de nossa República que se desfazia do Império e ainda tenta ser alto sustentável, vimos  quanta ingenuidade da infância crer que ao ligar para um programa interativo, transmitido pela televisão, que só chegou ao Brasil em mil novecentos e cinqüenta através do saudoso jornalista Assis Chateaubriand, conseguiríamos jogar com um daqueles telefones obsoletos, típicos da casa de nossos avós, com aquele disco cheio de circunferências propícias ao encaixe do dedo indicador marcadas com números para realizar a chamada.  Até aí tudo bem, o problema era que o jogo era controlado pelo teclado do telefone e não pelo disco e simplesmente ao tentar escutar o comando do apresentador, quando o mesmo dizia aperte o cinco, ainda estávamos na tecla três fatalmente perdendo o jogo sendo obrigados a escutar uma voz irritante e estridente que dizia: não tem chororô este jogo acabou! Santa ingenuidade.
                Parecia que nossa noite, já sendo o mais clichê possível, não chegaria ao fim. E depois de nos despedirmos, fiquei a pensar como é importante o convívio com os outros, passar sua experiência e receber outras tantas, saber usar nossos ouvidos para memorizar todos os fatos e guardá-los para mais tarde contar a outras pessoas com grande sorriso e brilho nos olhos. Feliz de quem tem o poder da comunicação. Como dizia o mestre Chacrinha: “Diz aí meu filho!”

Repaginando-me


       Logo após ingressar na faculdade de historia, na cidade de Barbacena, adentrei  para o universo da educação de modo bastante rápido e, com toda razão, inexperiente. Sem ainda estar formado, já comecei a ministrar aulas de geografia, sociologia e historia voltadas para o ensino médio. Uma experiência ótima a principio.
 A receptividade naquele ambiente jovem foi totalmente agradável. Lembro-me que na época, freqüentava os mesmos lugares, as mesmas festas que muitos alunos, além de conhecer parentes de alguns ou até mesmo ter amizades com irmãos de outros. Praticamente todos gostavam de minha pessoa e, conseqüentemente, das minhas aulas, era o que eu pensava.
O tempo foi passando e em uma manhã, ao aplicar um exercício de outro professor em uma de minhas turmas, fui comunicado por uma funcionária da escola que estava sendo chamado à sala de direção. Todos me olharam assustados como se eu fosse um aluno que cometera algo ilícito no horário do recreio. Sem saber o porquê do chamado, caminhei até a sala de direção sentindo-me acusado de algo, me transformado então, naquele mesmo aluno de cabeça raspada, jogador da seleção de vôlei da escola e titular da seleção de Congonhas, pertencente ao terceiro ano “C” de mil novecentos e noventa e nove da mesma escola em que agora lecionava. Descendo aquelas mesmas escadas, sendo chamado à direção e pasmem, pela mesma diretora, por ser denunciado de cortar a fiação além de poluir a caixa d água com cinco quilos de pó de suco artificial resultando no fechamento da escola por três dias.  
Ao chegar naquela sala, onde não só a disposição do ambiente como também a diretora permaneciam idênticos como naquele tempo, fui convidado a sentar-me e somente sua voz não foi idêntica a daquele ano: esbravejante e rouca. Pelo contrário, ao conversar comigo, foi logo me dando os parabéns por ser um ex aluno daquela instituição e poder voltar à mesma como professor. Até o presente momento tudo bem. O pior ainda estaria por vir.
Delicadamente, aquela mulher alta de medidas extravagantes, logo foi ponderando alguns “erros” em minhas aulas. Segundo ela, suas argumentações estavam sendo baseadas em alguns questionamentos de outros professores que não conseguiam trabalhar pelo fato de que as turmas em que eu ministrava minhas aulas comportarem-se um tanto quanto exaltadas, ou seja, falavam demais e que a partir daquele dia, ao voltar para minha sala, deveria repensar meus métodos.
Após uma repressão daquela, com medo de perder um dos meus primeiros empregos formais, acabei com tudo o que aos poucos, sem perceber, vinha sendo construindo entre eu aqueles alunos. Uma aula mais prática, que de certa forma era sim barulhenta, mas que prendia a atenção dos alunos, pois os mesmos opinavam em qualquer fato.
Os dias passaram-se e em meus horários vagos decidi observar o “método correto” de dar aula de alguns profissionais que estariam agradando a direção. Afinal de contas não era mais um adolescentizinho e precisava agir como um “verdadeiro professor”.
Foi assim que com o passar dos dias, minhas aulas tiveram a mesma característica das frias noites da cidade de Barbacena onde viajava diariamente com o intuito de concluir minha tão sonhada graduação.
As aulas em círculos, onde eu explicava o conteúdo no meio da turma, (pura cópia do programa sem censura com Leda Nagle) foram rapidamente sendo substituídas pelas velhas cinco fileiras, todas muito bem organizadas onde meu lugar era a frente de todos sujando-me com o pó de giz passando textos de outros livros e logo em seguida exercícios referentes aos mesmos. O forte envolvimento com os alunos foi sendo cortado mantendo um único foco: todos estavam ali para posteriormente atuarem em um curso de graduação e minha única obrigação, apesar de pensar que não fazia o ridículo papel de mero transmissor de conhecimentos, era fazer com que boa parte se saísse bem em seus exames buscando assim maior “conhecimento”. Nossos momentos de reflexão como, por exemplo, de nos colocarmos dentro da Ditadura Militar, da Segunda Guerra, do Nazi-Facismo, da Guerra Fria, foram também substituídos por questões e mais questões de vestibulares. Era tudo muito técnico. Lembro-me das noites em que preparava minhas aulas todas pautadas em exercícios como estes para resolvê-los com meus alunos. Uma grande ilusão! E assim seguia a minha carreira. Só enxergando para frente, sem sequer piscar ou olhar para os lados. Mantendo o foco e pensando no meu emprego.
Como era de se esperar, as aulas foram ficando engessadas, sem participação dos alunos. Comecei a observar que estava ficando inseguro ao explicar determinado fato histórico. Em frente a mais de trinta adolescentes ficava com a saliva seca e grudenta, as mãos e roupa todas sujas de giz e, como resposta de todo este esforço que institucionalizei, sempre escutava um bocejo do fundo da sala ou então, no final daquela exaustiva explicação, ao olhar para seus rostos e fazer a derradeira pergunta: “entenderam?” todos, mecanicamente feito uma ola nos estádios de futebol, faziam um movimento com a cabeça correspondendo a um sim, entretanto, este mesmo “sim” era expresso em suas faces por um vazio, algo como se nada das explicações tivesse sido filtradas e a frustração sempre vinha semanas depois quando eram testados para obterem nota.
A inquietude começou profundamente a incomodar-me e nas minhas noites de descanso, fazia sempre a mesma pergunta: “como passar uma explicação mais abrangente sobre determinado fato histórico visando uma maior atenção e entendimento dos alunos no seu processo de ensino aprendizagem?”
Meu contrato naquela escola de ensino médio expirou-se e eu não havia encontrado respostas para aquela angústia. Fiquei um bom tempo sem ministrar aulas e neste período transitei entre dois empregos distintos: funcionário de uma biblioteca pública e posteriormente de um departamento de fiscalização fazendária.
Chegando ao ano de dois mil e oito, fui aprovado em um processo seletivo da cidade de Congonhas para ministrar aulas para o ensino fundamental do sexto ao nono ano. Não queria de forma alguma em minha vida trabalhar com ensino fundamental. Era desprezível ter que ensinar crianças de sexto ano por exemplo. Achava-os muito infantis e coloquei em meus pensamentos que tal fato nunca ocorreria. Foi então que no primeiro dia letivo de aula, no momento de saber quais seriam minhas turmas, fiquei menos insatisfeito quando descobri que ficaria com as séries finais, ou seja, oitavos e nonos anos. O estágio de felicidade foi passageiro e, ao perceber que meu cargo estava incompleto, mais uma vez foi solicitada minha presença na sala de direção para ser informado que também trabalharia com algumas turmas de sexto e sétimos anos. Minha frustração aumentou naquele mesmo instante deixando-me inseguro, despreparado para trabalhar com crianças daquela idade.
Ao aceitar aquelas turmas mais jovens não fiz o mínimo esforço para mudar. Com medo de novamente ser chamado atenção pelo mesmo motivo de alguns anos atrás, ministrei minhas aulas como se estivesse em uma sala de ensino médio com exceção das questões de vestibular. E o efeito fora o mesmo. Porém desta vez sendo convidado a participar de reuniões com pais que contestavam aquele método para aquelas crianças.
Definitivamente o problema era meu e eu deveria buscar algo mais prático, que ensinasse sem tantos padrões formais, ou que pelo menos fizesse uma amálgama dos dois.
Em uma de minhas aulas para um sétimo ano, sobre o período da Idade Média, percebi que minha linguagem era um tanto quanto complexa para aquelas crianças e acabei tendo uma imagem de um professor de cursinho, expelindo conteúdos e mais conteúdos, acelerando sem que estas crianças pudessem me acompanhar. Queria terminar o livro didático em tempo hábil fechando meus trabalhos. Quanta ambição!
Mais uma vez refleti muito sobre como poderia fazer algo satisfatório para aqueles garotos. Pensei nas conversas com alguns pais e foi quando em um desses finais de semana estendidos com feriado de dois a três dias, em um dos meus vários momentos de nostalgia, aluguei uma serie de DVDs do desenho animado He-mam.
 Vendo aqueles episódios relembrei da minha infância sentando ao sofá, vidrado naquelas batalhas entre o “bem” e o “mau”, os freqüentes ataques do esqueleto a fim de invadir de vez o castelo de Grayskull. Foi assim que vendo o castelo, os rei e rainhas e as vestimentas dos heróis e vilões que pude perceber certas características da Idade Média e, passando alguns episódios poderia criar algumas atividades para que os alunos pudessem identificar as semelhanças no desenho com o conteúdo em questão. Realmente foi algo que deu certo e que prendeu atenção de todos.
Logo depois, dada a atividade, em uma conversa informal, com as carteiras novamente em círculos, os alunos, por conta própria, começaram a identificar os personagens do desenho separando os “bons” e os “maus” e com uma visão verticalizada, assim como na minha infância, entenderam que o bem era representado por He-man e seus amigos e o “mau” era conseqüentemente o bruxo esqueleto.
Todos concordaram exceto uma garota que ao comparar o desenho com a Idade Média via He-man como um cavaleiro que fazia parte da ordem nobre da escala feudal prestando serviços aos reis de Etérnia. Achei brilhante sua percepção e vi que ela não iria parar por ali ao me dizer também que o esqueleto não era tão “mau” assim. Para ela, o bruxo azul com capuz era representado por uma caveira que significava a morte, a fome de muitos da idade media devido às pestes e falta de higiene daquela época. Morava em um lugar escuro (montanha da serpente), representando o local das trevas imposto pela igreja e foi assim que pude perceber que por meio do lúdico poderia abrir caminho para o conhecimento dos alunos de forma menos entediante do que simplesmente falar e escrever.
Graças a esta aula, com alunos de ensino fundamental, venho desenvolvendo jogos que sirvam de apoio para disciplina de historia, tentando atualmente, também por meio de jogos lúdicos, apresentar aos mesmos uma maior valorização do patrimônio cultural da cidade de Congonhas.