Como nossos pais
Neste último feriado de origem cinzenta estive durante
algumas boas horas na companhia mais que especial da minha querida amiga Débora
Cristina mais conhecida no hall da fama congonhense como “Debinha”. Pessoa fora
do comum que alegra meus dias, principalmente finais de semana, com suas
risadas e seu humor pra lá de duvidoso ao indagar se eu tinha certeza absoluta
que o presente feriado era mesmo a comemoração da Proclamação da República
pois, segundo a mesma, estava com cara de Finados.
Conversamos
em meio há algumas cervejas sobre nossas alegrias, tristezas, conquistas e
perdas. Enfim, fizemos algo baseado num
divã em pleno centro da cidade, mais precisamente em uma mesa de bar, onde nem sequer
estávamos interessados se os outros ouviriam nossos segredos e tampouco
comentassem algo que nos denegrisse. Enfim estávamos regurgitando tudo o que
estava entalado em nossas gargantas, o que nos incomodava.
Em
determinado momento, e não me pergunte o porquê, começamos a falar de nossos
pais, aliás, não só deles, como em um dia quem sabe, ocupar o lugar deles.
Débora logo se mostrou uma pessoa ainda não preparada para a situação o que me
fez repensar sobre o assunto. Comecei a imaginar minhas noites de sono sendo
perdidas, pois o meu ou quem sabe meus filhos ainda permaneciam na rua. No
excesso de cabelos brancos de tanta preocupação, nos sermões que na maioria das
vezes não conseguiríamos dar ao olhar para cara deles e ter vontade de rir da
brincadeira de mau gosto em que acabaram fazer, no medo de descobrirem através de
um tio ou quem sabe um dos nossos companheiros, desses que ainda se acham um
eterno e convicto adolescente, o quanto fomos “irresponsáveis” e que não temos
sequer “moral” alguma para julgá-los, castigá-los ou algo que o valha. Lembro-me
de chegarmos a uma questão um tanto quanto delicada onde mesmo achando-se um
excelente pai ou mãe sempre faltará algo e, na maioria das vezes, alguns pais
tentam suprir a esta falta, que nada mais é um beijo de boa noite, um “como foi
na escola hoje?”, com algo material como um tênis, uma nova mochila, um celular
entre outros.
Outro
comentário surgido foi o de como também são tratados, aliás, maltratados alguns
pais. Começamos a expor situações de eterno desprezo de filhos que por não pertencerem
a uma classe social elevada criando certa vergonha, um desdém pelos seus responsáveis.
Quantos
são os pais de origem financeira mais baixa, que não tiveram uma oportunidade
de estudar, só têm hora para acordar e trabalhar em dois, três empregos dando o
de melhor para seu filho afim de que o mesmo possa se “igualar” materialmente
aos demais e não recebem sequer um obrigado? Pensamos muito sobre o assunto e
ao nos despedirmos pensei que a conversa ficaria por ali, não esquecida naquele
mesa de bar amarela em meio há tantas outras pessoas, mas que demorasse para
ser retomada. Foi quando exatamente alguns dias depois daquele feriado “confundido”
com o dia de Finados, que em um fim de tarde vendo televisão com meu pai,
reparamos no desdém de uma filha para com sua mãe de origem idosa. As cenas, a
meu ver, eram extremamente fortes. A filha, uma senhora de meia idade, a
principio, era a responsável por sua mãe que devido a sua avançada idade, necessitava
de cuidados especiais. O que mais chamou minha atenção foi à proposital
negligência da filha com sua genitora. A senhora, como já foi dito, precisava de
cuidados especiais, vivia em uma casa completamente suja, com poucos móveis já acabados,
em uma cadeira de rodas já em desuso em meio a uma infinidade de gatos que
dividiam sua comida com a da pobre senhora que posta no chão. Foi relatado também
que a pobre senhora, como se não bastasse viver em péssimas condições, além de
ter suas duas aposentadorias consumidas pela filha, não consumia seus remédios devidamente
além de ser banhada em água fria. Fiquei estarrecido! Como uma pessoa que provavelmente
dedicou boa parte da sua vida a criação dos filhos, justamente quando mais
precisa que uma mão seja estendida para que a acolha no fim de suas forças
recebe uma bofetada de desprezo e ganância? Onde foram parar os valores que foram
repassados há séculos no berço da cultura grega, espalhando-se por todo
ocidente que os mais velhos devem ser respeitados, pois são eles os responsáveis
por nossa eterna sabedoria? Em que mundo vivemos? Será que a ganância, o poder,
o dinheiro superaram valores como dignidade, honestidade e respeito? A cada ano
nossa são levantadas estatísticas de que a sociedade brasileira vem
envelhecendo como nos países europeus, mas será que o desrespeito, a
negligência, a falta de caráter dos mais novos acompanha a elevação da mesma? Pressinto
que muitos de nós ainda mantemos algo mítico de que nunca ocuparemos este
lugar.

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