Ao
partirmos de um pressuposto de turismo sustentável na cidade de Congonhas
devemos primeiramente refletir, ou pelo menos, pincelar algo de como foi dado seu
início.
Ao visitarmos os museus da cidade ou
até mesmo prosear com antigos moradores exercendo, indiretamente, um trabalho
de historia oral, podemos constatar que o Turismo da cidade tem seu início por
volta dos anos trinta quando a fé de pessoas vindas de todo canto do Brasil,
adentravam noites e dias de viagem em busca de uma graça alcançada pagando sua
“dívida” na igreja do Senhor Bom Jesus de Congonhas, situada na Basílica.
Todos os anos milhares de
romeiros vinham agradecer a graça concedida e nos meses de setembro a cidade
era pouca para tantas pessoas que por ali mesmo se alojavam por uma semana em
um culto religioso de extrema fé. Com o tempo, a cidade foi sendo visitada de
forma mais contínua, além de oferecer outra “salvação” para aqueles que
acreditavam na cura de problemas de saúde pelas mãos do Senhor José Arigó de
Freitas supostamente encarnando o espírito do médico alemão Doutor Fritz.
Pessoas não só do Brasil como do mundo inteiro vinham à cidade para uma
cirurgia com o médico que utilizava instrumentos arcaicos sem qualquer
assepsia. Filas enormes compunham a fachada de sua casa localizada na época
próxima a estação ferroviária de Congonhas durante horas e como uma espécie de
passatempo, segundo alguns moradores, a cidade foi utilizando-se daquilo e
mostrando aos visitantes suas belezas arquitetônicas barrocas esculpidas ao ar
livre pelo mestre aleijadinho na Igreja do Nosso Senhor Bom Jesus localizada no
bairro da Basílica.
Além da questão religiosa, as
pessoas agora vinham em busca de lazer, queriam apreciar as obras do Mestre
Aleijadinho e a paisagem natural que as cercava. Afinal as obras até o presente
momento transbordam uma genialidade e beleza agradando a maior parte de todos
que as visitam. É como se as imagens localizadas dentro das capelas nos sete
passos pudessem olhar e falar, expressando todo sofrimento retratado da época.
Com o andar da carruagem a cidade
de Congonhas ficou cada vez mais conhecida por seu grandioso conjunto
arquitetônico barroco ao ar livre trazendo milhares de pessoas a fim de se
informarem sobre tão grandioso feito sendo reconhecida como patrimônio cultural
da UNESCO. O turismo, assim como em Ouro Preto e Mariana, foi cada vez mais se
intensificando e a cidade, infelizmente, não acompanhou tamanho avanço. Na
verdade as obras, como já dito passaram ser atração principal da cidade e nada
mais, ou seja, não foi dada importância de outros pontos da cidade. Não foi salientada
para os visitantes a importância dos seus distritos no processo de construção e
identificação do município.
O distrito do Maranhão que abriga
até hoje cadeias da época colonial, fabricadas em blocos desiguais de pedras com
portas e grades de aço, foram jogadas as traças, estão no esquecimento da
população, deixando a vegetação tomar conta das mesmas onde nota-se a ausência de
visitações ao local.
Trilhas datadas da época do império,
localizadas nos fundos da Escola Municipal Fortunata Junqueira de Freitas com
construções de tubos para condução de água passando pelas matas daquele local foram
também negligenciadas dando espaço a construções particulares. E o que dizer da
riqueza do distrito de Soledade? Atualmente denominado de Lobo Leite em
homenagem ao engenheiro Francisco Lobo Leite Pereira, responsável pela
construção de uma linha férrea na época de Dom Pedro II, fazendo com que o
então distrito ainda denominado de Soledade servisse para abastecer as cidades
de Ouro Preto e Mariana com seus produtos agrícolas encontra-se totalmente no
esquecimento da população.
Toda a riqueza turística da
cidade de Congonhas ficou simplesmente concentrada nas obras do mestre
Aleijadinho, não fazendo uma conexão abrangente para que os fatos sejam
repassados aos que visitam a cidade e pesquisados para os que trabalham com sua
identidade histórico cultural gerando o infeliz resultado de uma cidade de
passeio, descaracterizada em seus imóveis cada vez mais modernos, não dando
valor algum ao ambiente histórico preservando assim uma pequena parte de seu
patrimônio.
Pela falta de políticas públicas contundentes
para com o turismo local, chega-se até a cidade, aprecia-se rapidamente o
entorno localizado na Basílica, seguindo viagem para outras cidades históricas com
algo mais atrativo sobre seu surgimento, sua identidade, sua historia.
Pouquíssima atitude vem sendo tomada ao longo
dos anos ao que tange sobre algo como educação patrimonial em nosso município.
É raro ver um professor da cidade saindo com seus alunos para lugares como do
distrito de Lobo Leite, Maranhão ou até mesmo no próprio entorno da Basílica. A
cidade vem a cada dia dando maior importância para o ato de exploração mineral
esquecendo-se da importância de seu passado.
Chega ser explicito o tamanho da
expropriação de nossas riquezas minerais pelas mãos de grandes empresas
privatizadas, onde farelos de uma mísera fatia deste bolo ficam para os
cidadãos congonhenses. Farelos estes que chegam a quebrar nas pontas dos nossos
narizes em forma de pó de minério de ferro sujando nossas vias públicas, nossas
residências, dando a impressão de estarmos inseridos na época colonial onde as
casas eram da cor de barro devido à exploração aurífera.
Além de agravar nossa saúde a cada dia, é de
causar espanto o fato de nenhuma destas grandes empresas criarem algumas medidas
mitigatórias ao seu impacto estabelecendo uma união junto aos
órgãos públicos, uma política de turismo sustentável, de preservação
patrimonial para a cidade de Congonhas para fomentar não somente a vinda de
mais pessoas a cidade com o intuito de conhecer seu passado por inteiro como também
aguçar o lazer do cidadão comum, ou seja, sair dessa esfera onde a importância
patrimonial da cidade encontra-se somente em um único lugar.
Chega a causar espanto a discrepância de
órgãos públicos do poder Executivo de Secretarias de Cultura e Educação andando
em sentidos contrários e pasmem, em calçadas distintas, ao promover anualmente
uma Semana de Museus com uma pequena visita de estudantes da rede municipal de
ensino a um determinado ponto da cidade (na maioria das vezes o entorno da
Basílica) não dando continuidade ao processo histórico gerando a infausta inexistência
de um projeto mais abrangente despertando a curiosidade, do por que estar
inserido naquele lugar.
Em suma podemos assim observar
que a prática de um turismo sustentável na cidade é de extrema importância e
urgência e aliando este fato com uma educação patrimonial nas escolas teríamos
em poucos anos um impacto mais produtivo neste setor que vem a cada dia
agonizando, sendo deixado para trás.
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