quinta-feira, 14 de junho de 2012

Mais por Congonhas


Ao partirmos de um pressuposto de turismo sustentável na cidade de Congonhas devemos primeiramente refletir, ou pelo menos, pincelar algo de como foi dado seu início.
            Ao visitarmos os museus da cidade ou até mesmo prosear com antigos moradores exercendo, indiretamente, um trabalho de historia oral, podemos constatar que o Turismo da cidade tem seu início por volta dos anos trinta quando a fé de pessoas vindas de todo canto do Brasil, adentravam noites e dias de viagem em busca de uma graça alcançada pagando sua “dívida” na igreja do Senhor Bom Jesus de Congonhas, situada na Basílica.
Todos os anos milhares de romeiros vinham agradecer a graça concedida e nos meses de setembro a cidade era pouca para tantas pessoas que por ali mesmo se alojavam por uma semana em um culto religioso de extrema fé. Com o tempo, a cidade foi sendo visitada de forma mais contínua, além de oferecer outra “salvação” para aqueles que acreditavam na cura de problemas de saúde pelas mãos do Senhor José Arigó de Freitas supostamente encarnando o espírito do médico alemão Doutor Fritz. Pessoas não só do Brasil como do mundo inteiro vinham à cidade para uma cirurgia com o médico que utilizava instrumentos arcaicos sem qualquer assepsia. Filas enormes compunham a fachada de sua casa localizada na época próxima a estação ferroviária de Congonhas durante horas e como uma espécie de passatempo, segundo alguns moradores, a cidade foi utilizando-se daquilo e mostrando aos visitantes suas belezas arquitetônicas barrocas esculpidas ao ar livre pelo mestre aleijadinho na Igreja do Nosso Senhor Bom Jesus localizada no bairro da Basílica.
Além da questão religiosa, as pessoas agora vinham em busca de lazer, queriam apreciar as obras do Mestre Aleijadinho e a paisagem natural que as cercava. Afinal as obras até o presente momento transbordam uma genialidade e beleza agradando a maior parte de todos que as visitam. É como se as imagens localizadas dentro das capelas nos sete passos pudessem olhar e falar, expressando todo sofrimento retratado da época.
Com o andar da carruagem a cidade de Congonhas ficou cada vez mais conhecida por seu grandioso conjunto arquitetônico barroco ao ar livre trazendo milhares de pessoas a fim de se informarem sobre tão grandioso feito sendo reconhecida como patrimônio cultural da UNESCO. O turismo, assim como em Ouro Preto e Mariana, foi cada vez mais se intensificando e a cidade, infelizmente, não acompanhou tamanho avanço. Na verdade as obras, como já dito passaram ser atração principal da cidade e nada mais, ou seja, não foi dada importância de outros pontos da cidade. Não foi salientada para os visitantes a importância dos seus distritos no processo de construção e identificação do município.
O distrito do Maranhão que abriga até hoje cadeias da época colonial, fabricadas em blocos desiguais de pedras com portas e grades de aço, foram jogadas as traças, estão no esquecimento da população, deixando a vegetação tomar conta das mesmas onde nota-se a ausência de visitações ao local.
Trilhas datadas da época do império, localizadas nos fundos da Escola Municipal Fortunata Junqueira de Freitas com construções de tubos para condução de água passando pelas matas daquele local foram também negligenciadas dando espaço a construções particulares. E o que dizer da riqueza do distrito de Soledade? Atualmente denominado de Lobo Leite em homenagem ao engenheiro Francisco Lobo Leite Pereira, responsável pela construção de uma linha férrea na época de Dom Pedro II, fazendo com que o então distrito ainda denominado de Soledade servisse para abastecer as cidades de Ouro Preto e Mariana com seus produtos agrícolas encontra-se totalmente no esquecimento da população.
Toda a riqueza turística da cidade de Congonhas ficou simplesmente concentrada nas obras do mestre Aleijadinho, não fazendo uma conexão abrangente para que os fatos sejam repassados aos que visitam a cidade e pesquisados para os que trabalham com sua identidade histórico cultural gerando o infeliz resultado de uma cidade de passeio, descaracterizada em seus imóveis cada vez mais modernos, não dando valor algum ao ambiente histórico preservando assim uma pequena parte de seu patrimônio.
Pela falta de políticas públicas contundentes para com o turismo local, chega-se até a cidade, aprecia-se rapidamente o entorno localizado na Basílica, seguindo viagem para outras cidades históricas com algo mais atrativo sobre seu surgimento, sua identidade, sua historia.
 Pouquíssima atitude vem sendo tomada ao longo dos anos ao que tange sobre algo como educação patrimonial em nosso município. É raro ver um professor da cidade saindo com seus alunos para lugares como do distrito de Lobo Leite, Maranhão ou até mesmo no próprio entorno da Basílica. A cidade vem a cada dia dando maior importância para o ato de exploração mineral esquecendo-se da importância de seu passado.
Chega ser explicito o tamanho da expropriação de nossas riquezas minerais pelas mãos de grandes empresas privatizadas, onde farelos de uma mísera fatia deste bolo ficam para os cidadãos congonhenses. Farelos estes que chegam a quebrar nas pontas dos nossos narizes em forma de pó de minério de ferro sujando nossas vias públicas, nossas residências, dando a impressão de estarmos inseridos na época colonial onde as casas eram da cor de barro devido à exploração aurífera.
 Além de agravar nossa saúde a cada dia, é de causar espanto o fato de nenhuma destas grandes empresas criarem algumas medidas mitigatórias  ao  seu impacto estabelecendo uma união junto aos órgãos públicos, uma política de turismo sustentável, de preservação patrimonial para a cidade de Congonhas para fomentar não somente a vinda de mais pessoas a cidade com o intuito de conhecer seu passado por inteiro como também aguçar o lazer do cidadão comum, ou seja, sair dessa esfera onde a importância patrimonial da cidade encontra-se somente em um único lugar.
 Chega a causar espanto a discrepância de órgãos públicos do poder Executivo de Secretarias de Cultura e Educação andando em sentidos contrários e pasmem, em calçadas distintas, ao promover anualmente uma Semana de Museus com uma pequena visita de estudantes da rede municipal de ensino a um determinado ponto da cidade (na maioria das vezes o entorno da Basílica) não dando continuidade ao processo histórico gerando a infausta inexistência de um projeto mais abrangente despertando a curiosidade, do por que estar inserido naquele lugar.
Em suma podemos assim observar que a prática de um turismo sustentável na cidade é de extrema importância e urgência e aliando este fato com uma educação patrimonial nas escolas teríamos em poucos anos um impacto mais produtivo neste setor que vem a cada dia agonizando, sendo deixado para trás.    

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