domingo, 2 de outubro de 2011

Isso isso isso e mais aquilo


A televisão até que não “me deixou burro muito burro demais”. Digo isso porque nos últimos dias, ou meses nesta minha correria diária onde vejo as vinte e quatro horas do dia desaparecerem de maneira volátil, ao sentar-me diante da caixa preta, tenho como única distração, um seriado, exibido pela primeira vez no México na rede Telivisa nos anos setenta chegando ao Brasil no inicio da década de oitenta.
O programa Chaves, denominado em seu país como “Chavo Del oito”, protagonizado pelo humorista chespirito encantou e ainda encanta pessoas de idades distintas. Com um humor ingênuo, um cenário de baixo orçamento, o comediante Roberto Bolanos e sua trupe de personagens repletos de chavões conquistaram boa parte do mundo levando alegria aos nossos lares. Quem de nós nunca ficou completando as frases do senhor madruga quando agride o Chaves? O choro da Chiquinha? O meloso encontro do professor Girafales com dona Florinda? Ou até mesmo rindo do carteiro Jaiminho que empurrava sua bicicleta por não saber andar dando preferência a terceiros para que os mesmos procurassem suas cartas evitando assim a enorme fadiga? Vai entender! Coisas de Tangamandápio.
Quando comecei a ter contato com o programa televiso, muitas vezes achava hilário, outras ficava torcendo para acabar e senti uma enorme saudade quando o mesmo saiu do ar. Entretanto passados alguns anos, ao me deparar com ele novamente, e desta vez com uma enorme freqüência, comecei vê-lo com outra perspectiva. Fico espantado com o grande teor de cunho político social passado de maneira implícita no seriado em meio a um coro de risadas. Confusos? Então vamos dar inicio a começar pelo seu espaço físico. A historia se passa em uma pequena vila, de origem humilde dividida por dois pátios, onde todos seus moradores são desprovidos de residência fixa pagando ao proprietário destes imóveis apelidado, devido seu excesso de peso, de senhor Barriga. Dando seguimento aos outros moradores, entra em cena uma senhora de meia idade, viúva, mãe de um garoto mimado que adquire praticamente toda espécie de brinquedo solicitado com exceção da tão sonhada bola quadrada. Estou falando de Dona Florinda. Uma dona de casa que, por receber uma pensão vitalícia do seu marido engolido por uma baleia, julga-se financeiramente superior aos demais moradores insultando-os de gentalha fazendo que seu filho tenha o mesmíssimo comportamento de desprezo com a vizinhança. Dona Florinda tem um relacionamento meloso com um professor que ministra aulas de conhecimentos gerais e exatos para alunos aparentemente de ensino fundamental onde a sala da aula é típica das escolas públicas do Brasil e talvez do México: espaço físico abarrotado de alunos, com pouca instrução e escassez de outros elementos didáticos ficando apenas com a fala, o quadro negro e o giz. Os alunos, maioria das aulas são dispersos, não compreendem o processo histórico alem de se apavorarem quando são argüidos oralmente dando respostas sem nexo afim de que as mesmas valham para algo.
O ator Ramon Gonzalez interpreta o personagem seu madruga. Meu preferido por sinal. Com uma calça jeans, desbotada, all star, camisa preta e um chapéu em frangalhos o ator dá vida a um personagem que na maioria das vezes é visto por todos como um vagabundo por não ter emprego fixo além de não estar com suas contas em dia. Ao meu ver, o senhor madruga é mais um dos tantos Josés da vida que estão correndo atrás de algo mas nunca alcançam. Observem que são poucas as vezes em que o mesmo não está praticando algum oficio para ganhar uns míseros trocados: pintor da vila, sapateiro, boxeador quando jovem, fotógrafo de lambe lambe, carpinteiro, funcionário de parque, barbeiro e até mesmo pasmem... vendedor de churros para Dona Florinda e conselheiro amoroso para o professor Girafales em um momento de tensão com a amada. Ele sempre batalha, porém devido as mazelas da sociedade em que está inserido nunca conseguiu um trabalho digno sustentando sua filha como pode vivendo na escória da sociedade.
Finalizando temos um contato com um garoto que deixa explicita a miséria. Com uma roupa toda rasgada, Chaves é um garoto raquítico, com extrema fome, órfão, sem um teto para se abrigar vivendo dentro de um barril. Em suma toda a trama está fazendo uma denuncia da sociedade desigual em que vivemos, dos atos políticos mal pensados onde inocentes acabam por pagar um alto preço por toda uma vida.

4 comentários:

  1. Nunca tinha pensado no Chaves por esse ângulo! Continua postando mais coisa boa pra gente, amigo!

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  2. Com certeza Fernanda. Sempre que vierem ideias novas estarei aqui criando mais um post.

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  3. Que isso Érick... é uma algo recíproco meu amigo. E isso acontece pelo fato do orgulho que sinto em poder ser seu amigo. Desde a época de Eternia rsrsrsrs

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