O
ano não poderia ser outro senão o de mil novecentos de dois onde em uma negra
noite chuvosa de sábado, seis indivíduos de personalidades distintas
encontraram-se, meio que por acaso, ironia do destino, naquela espaçosa taberna na companhia de vinhos, sucos, batatas,
cervejas e vários cigarros começando, de improviso, a dar início ao que poderíamos
chamar de confraria.
Os
festejos que ocorriam na mesma noite daquele ainda pacato vilarejo não eram
vistos com bons olhos por nenhum dos integrantes da mesa. Afinal, ambos se
queixavam da invasão de pessoas com idade precoce em espaços noturnos tirando
assim o que ainda poderíamos chamar de privacidade. Em suma seria nada mais do
que “uma festa estranha com gente
esquisita e eu não estou legal”.
Conversa vai
conversa vem e os temas foram dos mais esdrúxulos possíveis. Imaginem só a
diversidade. Foram abordados temas de extrema responsabilidade sobre o meio
ambiente, diferenças culturais entre o ocidente e oriente, tradições familiares
no período da quaresma como abstinência de álcool, relação dos mais antigos com
a morte, a viuvez, fato que não é muito visto em 1902, espécies distintas de camarões onde o nome de
uma espécie deixou alguém com água na boca, banheiros de boates GLS personalizados
de acordo com sua preferência sexual, dizeres sobre a criação do código Morse, chegando
a passar por dicas de como fazer seu namorado broxar. Aliás, desde que me
entendo por gente, desde que mundo é mundo, não conheço ninguém que se dirige à
casa de Deus e deseja algo totalmente inverso a santa benevolência. Se bem que
temos o livre arbítrio e sendo assim seremos responsáveis por nossos próprios “pecados”.
A
tecnologia também foi abordada e já em mil novecentos e dois, época jovem de
nossa República que se desfazia do Império e ainda tenta ser alto sustentável,
vimos quanta ingenuidade da infância crer
que ao ligar para um programa interativo, transmitido pela televisão, que só
chegou ao Brasil em mil novecentos e cinqüenta através do saudoso jornalista
Assis Chateaubriand, conseguiríamos jogar com um daqueles telefones obsoletos, típicos
da casa de nossos avós, com aquele disco cheio de circunferências propícias ao
encaixe do dedo indicador marcadas com números para realizar a chamada. Até aí tudo bem, o problema era que o jogo era
controlado pelo teclado do telefone e não pelo disco e simplesmente ao tentar
escutar o comando do apresentador, quando o mesmo dizia aperte o cinco, ainda estávamos
na tecla três fatalmente perdendo o jogo sendo obrigados a escutar uma voz
irritante e estridente que dizia: não tem
chororô este jogo acabou! Santa ingenuidade.
Parecia
que nossa noite, já sendo o mais clichê possível, não chegaria ao fim. E depois
de nos despedirmos, fiquei a pensar como é importante o convívio com os outros,
passar sua experiência e receber outras tantas, saber usar nossos ouvidos para
memorizar todos os fatos e guardá-los para mais tarde contar a outras pessoas
com grande sorriso e brilho nos olhos. Feliz de quem tem o poder da comunicação.
Como dizia o mestre Chacrinha: “Diz aí
meu filho!”
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