domingo, 18 de março de 2012

Quem não comunica não se trumbica. Se estrepa!


                O ano não poderia ser outro senão o de mil novecentos de dois onde em uma negra noite chuvosa de sábado, seis indivíduos de personalidades distintas encontraram-se, meio que por acaso, ironia do destino,  naquela espaçosa taberna  na companhia de vinhos, sucos, batatas, cervejas e vários cigarros começando, de improviso, a dar início ao que poderíamos chamar de confraria.
                Os festejos que ocorriam na mesma noite daquele ainda pacato vilarejo não eram vistos com bons olhos por nenhum dos integrantes da mesa. Afinal, ambos se queixavam da invasão de pessoas com idade precoce em espaços noturnos tirando assim o que ainda poderíamos chamar de privacidade. Em suma seria nada mais do que “uma festa estranha com gente esquisita e eu não estou legal”.
Conversa vai conversa vem e os temas foram dos mais esdrúxulos possíveis. Imaginem só a diversidade. Foram abordados temas de extrema responsabilidade sobre o meio ambiente, diferenças culturais entre o ocidente e oriente, tradições familiares no período da quaresma como abstinência de álcool, relação dos mais antigos com a morte, a viuvez, fato que não é muito visto em 1902,  espécies distintas de camarões onde o nome de uma espécie deixou alguém com água na boca, banheiros de boates GLS personalizados de acordo com sua preferência sexual, dizeres sobre a criação do código Morse, chegando a passar por dicas de como fazer seu namorado broxar. Aliás, desde que me entendo por gente, desde que mundo é mundo, não conheço ninguém que se dirige à casa de Deus e deseja algo totalmente inverso a santa benevolência. Se bem que temos o livre arbítrio e sendo assim seremos responsáveis por nossos próprios “pecados”.
                A tecnologia também foi abordada e já em mil novecentos e dois, época jovem de nossa República que se desfazia do Império e ainda tenta ser alto sustentável, vimos  quanta ingenuidade da infância crer que ao ligar para um programa interativo, transmitido pela televisão, que só chegou ao Brasil em mil novecentos e cinqüenta através do saudoso jornalista Assis Chateaubriand, conseguiríamos jogar com um daqueles telefones obsoletos, típicos da casa de nossos avós, com aquele disco cheio de circunferências propícias ao encaixe do dedo indicador marcadas com números para realizar a chamada.  Até aí tudo bem, o problema era que o jogo era controlado pelo teclado do telefone e não pelo disco e simplesmente ao tentar escutar o comando do apresentador, quando o mesmo dizia aperte o cinco, ainda estávamos na tecla três fatalmente perdendo o jogo sendo obrigados a escutar uma voz irritante e estridente que dizia: não tem chororô este jogo acabou! Santa ingenuidade.
                Parecia que nossa noite, já sendo o mais clichê possível, não chegaria ao fim. E depois de nos despedirmos, fiquei a pensar como é importante o convívio com os outros, passar sua experiência e receber outras tantas, saber usar nossos ouvidos para memorizar todos os fatos e guardá-los para mais tarde contar a outras pessoas com grande sorriso e brilho nos olhos. Feliz de quem tem o poder da comunicação. Como dizia o mestre Chacrinha: “Diz aí meu filho!”

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