domingo, 18 de março de 2012

Repaginando-me


       Logo após ingressar na faculdade de historia, na cidade de Barbacena, adentrei  para o universo da educação de modo bastante rápido e, com toda razão, inexperiente. Sem ainda estar formado, já comecei a ministrar aulas de geografia, sociologia e historia voltadas para o ensino médio. Uma experiência ótima a principio.
 A receptividade naquele ambiente jovem foi totalmente agradável. Lembro-me que na época, freqüentava os mesmos lugares, as mesmas festas que muitos alunos, além de conhecer parentes de alguns ou até mesmo ter amizades com irmãos de outros. Praticamente todos gostavam de minha pessoa e, conseqüentemente, das minhas aulas, era o que eu pensava.
O tempo foi passando e em uma manhã, ao aplicar um exercício de outro professor em uma de minhas turmas, fui comunicado por uma funcionária da escola que estava sendo chamado à sala de direção. Todos me olharam assustados como se eu fosse um aluno que cometera algo ilícito no horário do recreio. Sem saber o porquê do chamado, caminhei até a sala de direção sentindo-me acusado de algo, me transformado então, naquele mesmo aluno de cabeça raspada, jogador da seleção de vôlei da escola e titular da seleção de Congonhas, pertencente ao terceiro ano “C” de mil novecentos e noventa e nove da mesma escola em que agora lecionava. Descendo aquelas mesmas escadas, sendo chamado à direção e pasmem, pela mesma diretora, por ser denunciado de cortar a fiação além de poluir a caixa d água com cinco quilos de pó de suco artificial resultando no fechamento da escola por três dias.  
Ao chegar naquela sala, onde não só a disposição do ambiente como também a diretora permaneciam idênticos como naquele tempo, fui convidado a sentar-me e somente sua voz não foi idêntica a daquele ano: esbravejante e rouca. Pelo contrário, ao conversar comigo, foi logo me dando os parabéns por ser um ex aluno daquela instituição e poder voltar à mesma como professor. Até o presente momento tudo bem. O pior ainda estaria por vir.
Delicadamente, aquela mulher alta de medidas extravagantes, logo foi ponderando alguns “erros” em minhas aulas. Segundo ela, suas argumentações estavam sendo baseadas em alguns questionamentos de outros professores que não conseguiam trabalhar pelo fato de que as turmas em que eu ministrava minhas aulas comportarem-se um tanto quanto exaltadas, ou seja, falavam demais e que a partir daquele dia, ao voltar para minha sala, deveria repensar meus métodos.
Após uma repressão daquela, com medo de perder um dos meus primeiros empregos formais, acabei com tudo o que aos poucos, sem perceber, vinha sendo construindo entre eu aqueles alunos. Uma aula mais prática, que de certa forma era sim barulhenta, mas que prendia a atenção dos alunos, pois os mesmos opinavam em qualquer fato.
Os dias passaram-se e em meus horários vagos decidi observar o “método correto” de dar aula de alguns profissionais que estariam agradando a direção. Afinal de contas não era mais um adolescentizinho e precisava agir como um “verdadeiro professor”.
Foi assim que com o passar dos dias, minhas aulas tiveram a mesma característica das frias noites da cidade de Barbacena onde viajava diariamente com o intuito de concluir minha tão sonhada graduação.
As aulas em círculos, onde eu explicava o conteúdo no meio da turma, (pura cópia do programa sem censura com Leda Nagle) foram rapidamente sendo substituídas pelas velhas cinco fileiras, todas muito bem organizadas onde meu lugar era a frente de todos sujando-me com o pó de giz passando textos de outros livros e logo em seguida exercícios referentes aos mesmos. O forte envolvimento com os alunos foi sendo cortado mantendo um único foco: todos estavam ali para posteriormente atuarem em um curso de graduação e minha única obrigação, apesar de pensar que não fazia o ridículo papel de mero transmissor de conhecimentos, era fazer com que boa parte se saísse bem em seus exames buscando assim maior “conhecimento”. Nossos momentos de reflexão como, por exemplo, de nos colocarmos dentro da Ditadura Militar, da Segunda Guerra, do Nazi-Facismo, da Guerra Fria, foram também substituídos por questões e mais questões de vestibulares. Era tudo muito técnico. Lembro-me das noites em que preparava minhas aulas todas pautadas em exercícios como estes para resolvê-los com meus alunos. Uma grande ilusão! E assim seguia a minha carreira. Só enxergando para frente, sem sequer piscar ou olhar para os lados. Mantendo o foco e pensando no meu emprego.
Como era de se esperar, as aulas foram ficando engessadas, sem participação dos alunos. Comecei a observar que estava ficando inseguro ao explicar determinado fato histórico. Em frente a mais de trinta adolescentes ficava com a saliva seca e grudenta, as mãos e roupa todas sujas de giz e, como resposta de todo este esforço que institucionalizei, sempre escutava um bocejo do fundo da sala ou então, no final daquela exaustiva explicação, ao olhar para seus rostos e fazer a derradeira pergunta: “entenderam?” todos, mecanicamente feito uma ola nos estádios de futebol, faziam um movimento com a cabeça correspondendo a um sim, entretanto, este mesmo “sim” era expresso em suas faces por um vazio, algo como se nada das explicações tivesse sido filtradas e a frustração sempre vinha semanas depois quando eram testados para obterem nota.
A inquietude começou profundamente a incomodar-me e nas minhas noites de descanso, fazia sempre a mesma pergunta: “como passar uma explicação mais abrangente sobre determinado fato histórico visando uma maior atenção e entendimento dos alunos no seu processo de ensino aprendizagem?”
Meu contrato naquela escola de ensino médio expirou-se e eu não havia encontrado respostas para aquela angústia. Fiquei um bom tempo sem ministrar aulas e neste período transitei entre dois empregos distintos: funcionário de uma biblioteca pública e posteriormente de um departamento de fiscalização fazendária.
Chegando ao ano de dois mil e oito, fui aprovado em um processo seletivo da cidade de Congonhas para ministrar aulas para o ensino fundamental do sexto ao nono ano. Não queria de forma alguma em minha vida trabalhar com ensino fundamental. Era desprezível ter que ensinar crianças de sexto ano por exemplo. Achava-os muito infantis e coloquei em meus pensamentos que tal fato nunca ocorreria. Foi então que no primeiro dia letivo de aula, no momento de saber quais seriam minhas turmas, fiquei menos insatisfeito quando descobri que ficaria com as séries finais, ou seja, oitavos e nonos anos. O estágio de felicidade foi passageiro e, ao perceber que meu cargo estava incompleto, mais uma vez foi solicitada minha presença na sala de direção para ser informado que também trabalharia com algumas turmas de sexto e sétimos anos. Minha frustração aumentou naquele mesmo instante deixando-me inseguro, despreparado para trabalhar com crianças daquela idade.
Ao aceitar aquelas turmas mais jovens não fiz o mínimo esforço para mudar. Com medo de novamente ser chamado atenção pelo mesmo motivo de alguns anos atrás, ministrei minhas aulas como se estivesse em uma sala de ensino médio com exceção das questões de vestibular. E o efeito fora o mesmo. Porém desta vez sendo convidado a participar de reuniões com pais que contestavam aquele método para aquelas crianças.
Definitivamente o problema era meu e eu deveria buscar algo mais prático, que ensinasse sem tantos padrões formais, ou que pelo menos fizesse uma amálgama dos dois.
Em uma de minhas aulas para um sétimo ano, sobre o período da Idade Média, percebi que minha linguagem era um tanto quanto complexa para aquelas crianças e acabei tendo uma imagem de um professor de cursinho, expelindo conteúdos e mais conteúdos, acelerando sem que estas crianças pudessem me acompanhar. Queria terminar o livro didático em tempo hábil fechando meus trabalhos. Quanta ambição!
Mais uma vez refleti muito sobre como poderia fazer algo satisfatório para aqueles garotos. Pensei nas conversas com alguns pais e foi quando em um desses finais de semana estendidos com feriado de dois a três dias, em um dos meus vários momentos de nostalgia, aluguei uma serie de DVDs do desenho animado He-mam.
 Vendo aqueles episódios relembrei da minha infância sentando ao sofá, vidrado naquelas batalhas entre o “bem” e o “mau”, os freqüentes ataques do esqueleto a fim de invadir de vez o castelo de Grayskull. Foi assim que vendo o castelo, os rei e rainhas e as vestimentas dos heróis e vilões que pude perceber certas características da Idade Média e, passando alguns episódios poderia criar algumas atividades para que os alunos pudessem identificar as semelhanças no desenho com o conteúdo em questão. Realmente foi algo que deu certo e que prendeu atenção de todos.
Logo depois, dada a atividade, em uma conversa informal, com as carteiras novamente em círculos, os alunos, por conta própria, começaram a identificar os personagens do desenho separando os “bons” e os “maus” e com uma visão verticalizada, assim como na minha infância, entenderam que o bem era representado por He-man e seus amigos e o “mau” era conseqüentemente o bruxo esqueleto.
Todos concordaram exceto uma garota que ao comparar o desenho com a Idade Média via He-man como um cavaleiro que fazia parte da ordem nobre da escala feudal prestando serviços aos reis de Etérnia. Achei brilhante sua percepção e vi que ela não iria parar por ali ao me dizer também que o esqueleto não era tão “mau” assim. Para ela, o bruxo azul com capuz era representado por uma caveira que significava a morte, a fome de muitos da idade media devido às pestes e falta de higiene daquela época. Morava em um lugar escuro (montanha da serpente), representando o local das trevas imposto pela igreja e foi assim que pude perceber que por meio do lúdico poderia abrir caminho para o conhecimento dos alunos de forma menos entediante do que simplesmente falar e escrever.
Graças a esta aula, com alunos de ensino fundamental, venho desenvolvendo jogos que sirvam de apoio para disciplina de historia, tentando atualmente, também por meio de jogos lúdicos, apresentar aos mesmos uma maior valorização do patrimônio cultural da cidade de Congonhas.        

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