Logo após ingressar na faculdade de Historia, na cidade de Barbacena, adentrei para o universo da educação de modo bastante rápido e, com toda razão, inexperiente. Sem ainda estar formado, já comecei a ministrar aulas de Geografia, Sociologia e História voltadas para o ensino médio. Uma experiência ótima a principio.
A receptividade naquele ambiente jovem foi totalmente agradável. Lembro-me que na época, frequentava os mesmos lugares, as mesmas festas que muitos alunos, além de conhecer parentes de alguns ou até mesmo ter amizades com irmãos de outros. Praticamente todos gostavam de mim e, consequentemente, das minhas aulas, era o que eu pensava.
O tempo foi passando e em uma manhã, ao aplicar um exercício de outro professor em uma de minhas turmas, fui comunicado por uma funcionária da escola que estava sendo chamado à sala de direção. Todos me olharam assustados como se eu fosse um aluno que cometera algo ilícito no horário do recreio. Sem saber o porquê do chamado, caminhei até a sala de direção sentindo-me acusado de algo, me transformado então, naquele mesmo aluno de cabeça raspada, jogador da seleção de vôlei da escola e titular da seleção de Congonhas, pertencente ao terceiro ano “C” de mil novecentos e noventa e nove da mesma escola em que agora lecionava. Descendo aquelas mesmas escadas, sendo chamado à direção e pasmem, pela mesma diretora, por ser denunciado de cortar a fiação além de poluir a caixa d água com cinco quilos de pó de suco artificial resultando no fechamento da escola por três dias.
Ao chegar naquela sala, onde não só a disposição do ambiente como também a diretora permaneciam idênticos como naquele tempo, fui convidado a sentar-me e somente sua voz não foi idêntica a daquele ano: esbravejante e rouca. Pelo contrário, ao conversar comigo, foi logo me parabenizando por ser um ex-aluno daquela instituição e poder voltar à mesma como professor. Até o presente momento tudo bem. O pior ainda estaria por vir.
Delicadamente, aquela mulher alta de medidas extravagantes, logo foi ponderando alguns “erros” em minhas aulas. Segundo ela, suas argumentações estavam sendo baseadas em alguns questionamentos de outros professores que não conseguiam trabalhar pelo fato de que as turmas em que eu ministrava minhas aulas eram dotadas de um comportamento um tanto quanto exaltado, ou seja, falavam demais e que a partir daquele dia, ao voltar para minha sala, deveria repensar meus métodos. Na verdade, o “repensar meus métodos” que ela se referia era nada mais do que engessar uma possível, mesmo que ínfima mudança.
A diretora também era formada em Historia e gostaria ou impunha de maneira cordial, que eu fizesse a continuidade do tradicionalismo que fora instituído ali por anos e que a mesma orgulhava-se tanto ao dizer: “Esta é uma escola referência e não podemos perder este título”. Como se seguisse uma receita de bolo, eu deveria limitar minhas aulas a algo mais factual que foi amplamente difundido por uma vertente onde o ensino pautava-se apenas na transmissão de conhecimentos do professor para o aluno, ou seja, não deveria haver existência de críticas sobre determinado fato e assimilação factual deveria sobrepor-se gerando assim uma avaliação mecanizada de todo conhecimento.
Após aquela conversa, fui recuando. Com medo de perder um dos meus primeiros empregos formais, acabei com o que aos poucos, sem perceber, vinha sendo construindo entre eu e aqueles alunos. Uma aula mais prática, que de certa forma era sim barulhenta, mas que prendia a atenção dos alunos, pois os mesmos opinavam em qualquer fato. Assim tomava contato com a força da tradição da escola que influenciava profundamente o ensino da não só da Historia escolar.
Os dias passaram-se e em meus horários vagos decidi observar o “método correto” de dar aula de alguns profissionais que estariam agradando a direção. Afinal de contas não era mais um adolescentizinho e precisava agir como um “verdadeiro professor”.
Foi assim que com o passar dos dias, minhas aulas tiveram a mesma característica das frias noites da cidade de Barbacena onde viajava diariamente com o intuito de concluir minha tão sonhada graduação. O convite da diretora significava um verdadeiro retraimento de um entusiasmo juvenil.
As aulas em círculos, onde eu explicava o conteúdo no meio da turma, com inspirações no programa sem censura com Leda Nagle foram rapidamente sendo substituídas pelas velhas cinco fileiras, todas muito bem organizadas onde meu lugar era a frente de todos sujando-me com o pó de giz passando textos de outros livros e logo em seguida exercícios referentes aos mesmos. O forte envolvimento com os alunos foi sendo cerceado mantendo um em favor de um único foco: todos estavam ali para atuarem posteriormente em um curso de graduação e minha única obrigação, apesar de pensar que não fazia o ridículo papel de mero transmissor de conhecimentos, era fazer com que boa parte se saísse bem em seus exames buscando assim maior “conhecimento”. Nossos momentos de reflexão como, por exemplo, de nos colocarmos dentro da Ditadura Militar, da Segunda Guerra, do Nazi-Facismo, da Guerra Fria, foram também substituídos por questões e mais questões de vestibulares. Era tudo muito técnico. Lembro-me das noites em que preparava minhas aulas todas pautadas em exercícios como estes para resolvê-los com meus alunos. Uma grande ilusão! E assim seguia a minha carreira. Só enxergando para frente, sem sequer piscar ou olhar para os lados. Mantendo o foco e pensando no meu emprego. Era a realidade dos fatos: eu era um professor substituto que estava de passagem e em um curto período de seis meses. Já não configuraria no hall dos efetivos, sendo assim, de nada adiantaria sair dos padrões estabelecidos naquele recinto escolar. Deveria então me adaptar para, quem sabe em uma próxima designação, ser cada vez mais aceito pelos meus colegas de trabalho e pela diretora por não fugir daquele caminho traçado
Como era de se esperar, as aulas foram ficando engessadas, sem participação dos alunos. Comecei a observar que estava ficando inseguro ao explicar determinado fato histórico. Em frente a mais de trinta adolescentes ficava com a saliva seca e grudenta, as mãos e roupa todas sujas de giz e, como resposta de todo este esforço que institucionalizei, sempre escutava um bocejo do fundo da sala ou então, no final daquela exaustiva explicação, ao olhar para seus rostos e fazer a derradeira pergunta: “entenderam?” todos, mecanicamente feito uma ola nos estádios de futebol, faziam um movimento com a cabeça correspondendo a um sim, entretanto, este mesmo “sim” era expresso em suas faces por um vazio, algo como se nada das explicações tivesse sido filtradas e a frustração sempre vinha semanas depois quando eram testados para obterem nota.
A inquietude começou profundamente a incomodar-me e nas minhas noites de descanso, fazia sempre a mesma pergunta: “como processar uma explicação mais abrangente sobre determinado fato histórico visando uma maior atenção e entendimento dos alunos no seu processo de ensino aprendizagem?”
Meu contrato naquela escola de Ensino Médio expirou-se e eu não havia encontrado respostas para aquela angústia. Fiquei um bom tempo sem ministrar aulas e neste período transitei entre dois empregos distintos: funcionário de uma biblioteca pública e posteriormente de um departamento de fiscalização fazendária.
Chegando ao ano de dois mil e oito, fui aprovado em um processo seletivo da cidade de Congonhas para ministrar aulas para o Ensino Fundamental do sexto ao nono ano. Não queria de forma alguma em minha vida trabalhar com Ensino Fundamental. Acreditava que era desprezível ter que ensinar crianças de sexto ano por exemplo. Achava-os muito infantis e coloquei em meus pensamentos que tal fato nunca ocorreria. Foi então que no primeiro dia letivo de aula, no momento de saber quais seriam minhas turmas, fiquei menos insatisfeito quando descobri que ficaria com as séries finais, ou seja, oitavos e nonos anos. O estágio de felicidade foi passageiro e, ao perceber que meu cargo estava incompleto, mais uma vez foi solicitada minha presença na sala de Direção para ser informado que também trabalharia com algumas turmas de sexto e sétimos anos. Minha frustração aumentou naquele mesmo instante deixando-me inseguro, despreparado para trabalhar com crianças daquela idade.
Ao aceitar aquelas turmas mais jovens não fiz o mínimo esforço para mudar. Com medo de novamente ser chamado atenção pelo mesmo motivo de alguns anos atrás, ministrei minhas aulas como se estivesse em uma sala de Ensino Médio com exceção das questões de vestibular. E o efeito fora o mesmo. Porém desta vez sendo convidado a participar de reuniões com pais que contestavam aquele método para aquelas crianças. Agora eram os pais que pressionavam outra postura como professor.
Definitivamente o problema era meu e eu deveria buscar algo mais prático, que ensinasse sem tantos padrões formais, ou que pelo menos fizesse uma amálgama dos dois. Eu deveria agora, mesmo que correndo risco do fracasso ou das críticas, seguir uma outra trilha. Sabia que meu aluno ser desafiado a pensar sobre as informações apresentadas em sala de aula criando assim um elo de compreensão de relações em determinados fatos históricos. Sabia também que deveria levar em consideração o conhecimento prévio a fim de exercer uma troca de conhecimentos entra ambas as partes gerando na sala de aula um ambiente de produção do conhecimento histórico. Com colocar isso em prática sem causar constrangimento aos meus superiores?
Em uma de minhas aulas para um sétimo ano sobre o período da Idade Média percebi que minha linguagem era bastante complexa para aquelas crianças e acabei tendo uma imagem de um professor de cursinho, expelindo conteúdos e mais conteúdos, acelerando sem que estas crianças pudessem me acompanhar. Era exigido terminar o livro didático em tempo hábil fechando meus trabalhos. Quanta ambição!
Mais uma vez refleti muito sobre como poderia fazer algo satisfatório para aqueles garotos. Pensei nas conversas com alguns pais e foi quando em um desses finais de semana estendidos com feriado de dois a três dias, em um dos meus vários momentos de nostalgia, aluguei uma serie de DVDs do desenho animado He-mam.
Vendo aqueles episódios relembrei da minha infância sentando ao sofá, vidrado naquelas batalhas entre o “bem” e o “mau”, os frequentes ataques do esqueleto a fim de invadir de vez o castelo de Grayskull. Foi assim que vendo o castelo, os rei e rainhas e as vestimentas dos heróis e vilões que pude perceber certas características da Idade Média e, passando alguns episódios poderia criar algumas atividades para que os alunos pudessem identificar as semelhanças no desenho com o conteúdo em questão. Realmente foi algo que deu certo e que prendeu atenção de todos.
Logo depois, dada a atividade, em uma conversa informal, com as carteiras novamente em círculos, os alunos, por conta própria, começaram a identificar os personagens do desenho separando os “bons” e os “maus” e com uma visão verticalizada, assim como na minha infância, entenderam que o bem era representado por He-man e seus amigos e o “mau” era consequentemente o bruxo esqueleto.
Todos concordaram exceto uma garota que ao comparar o desenho com a Idade Média via He-man como um cavaleiro que fazia parte da ordem nobre da escala feudal prestando serviços aos reis de Etérnia. Achei brilhante sua percepção e vi que ela não iria parar por ali ao me dizer também que o esqueleto não era tão “mau” assim. Para ela, o bruxo azul com capuz era representado por uma caveira que significava a morte, a fome de muitos da idade media devido às pestes e falta de higiene daquela época. Morava em um lugar escuro (montanha da serpente), representando o local das trevas imposto pela igreja e foi assim que pude perceber que por meio do lúdico poderia abrir caminho para o conhecimento dos alunos de forma menos entediante do que simplesmente falar e escrever. Observei também que o uso repetido desse tipo de intervenção tornaria as aulas sem sentido ou repetitivas. Estava pronto o desafio de trabalhar de modo diversificado o conteúdo de Historia e tentar apresentá-lo de modo dialogado com as questões do presente daqueles alunos seja por meio de mídias ou até mesmo na busca da interdisciplinaridade.
Graças a esta aula, com alunos de Ensino Fundamental, venho desenvolvendo jogos que servem de apoio para disciplina de Historia, tentando atualmente, também por meio de jogos lúdicos, apresentar aos mesmos uma maior valorização do patrimônio cultural da cidade de Congonhas.
Sendo assim, pretendo desenvolver um jogo sobre o patrimônio artístico cultural da cidade de Congonhas que sirva para alunos do 6º ao 9º ano refletirem sobre a importância patrimonial da cidade de Congonhas, muitas vezes pouco discutida em livros didáticos que simplesmente fazem um breve comentário sobre o entorno das obras do mestre Aleijadinho.
Este jogo terá como temática uma busca na ludicidade como forma de aprendizagem da disciplina de Historia e será baseado no jogo criado pela Grow denominado Perfil, onde são dadas dicas em várias cartas sobre uma pessoa, uma coisa, um ano e um lugar.
Na elaboração deste jogo voltado para alunos do ensino fundamental será trabalhado todo o entorno da Basílica do Senhor Bom Jesus juntamente com os museus da Imagem e Memória e Mineralogia.
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ResponderExcluirComo nossa educação é engessada , o grande interesse é chegar no fim de ano e ter cumprido a grade escola , agora fica a pergunta e o conhecimento ? será que conseguiram absorver pelo menos 50% do conteúdo ?Acredito que não , não é atoa que nosso país possui milhões de alfabetizados "analfabetos".Parabéns por não se deixar levar e ter continuado com um plano de trabalho diferente , onde realmente haverá aprendizado e de um modo que fuja dos nossos padrões de ensino atuais
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